16 de Novembro de 2015

Carta ao ladrão do Aeroporto

Minha mãe – Glória Belém – escreveu esse texto logo que voltou da Argentina no mês passado e achei legal compartilhar com vocês. Quem sabe o próprio ladrão possa ler e – de repente- pensar melhor em suas atitudes.

Senhora ou Senhor ladrão,

ladrão

Não sei se essa carta chegará a ser lida por vocês. Não sei nem se vocês sabem ler o português, mas assim como antigamente as pessoas colocavam suas mensagens em uma garrafa e as jogavam no mar, resolvi usar a internet, para quem sabe através dos compartilhamentos essa mensagem possa chegar até você.

Estive nesses últimos dias viajando por Buenos Aires com meu marido e um casal de amigos. Caminhando na Corrientes fui atacada por um homem que tentou arrancar do meu pescoço uma correntinha de ouro com um crucifixo que ganhei do meu marido há 30 anos. Segurei na hora com muita força naquela mão que tentava puxar a corrente e consegui evitar o roubo. Ele apenas havia conseguido arrebentar o meu cordão, a cruz caiu no chão e um casal de argentinos que acompanhavam a cena conseguiu achar e me devolver.

Apesar da agressão, rendi graças a Deus pelo objeto tão querido não ter sido roubado e o guardei dentro de uma caixinha na minha mala.

Bem, foi enorme a minha surpresa quando cheguei ao Brasil e constatei que esse objeto tão querido tinha sido retirado da minha mala. Pois é. Duas vezes o mesmo objeto. Na primeira tentativa, eu tive como evitar, mesmo sabendo que nunca devemos reagir a um assalto. Já na segunda, não tive essa opção, pois quem pegou, agiu covardemente no escuro.

Senhora ou Senhor ladrão, essa correntinha esteve em meu pescoço nos últimos 30 anos. Vi o crescimento da minha filha, fui a várias festas, estive no enterro de pessoas queridas e sempre com esse objeto junto a mim.

Por mais que tente relevar o fato do roubo, ele retorna à minha mente e não consigo simplesmente imaginar vocês como uma quadrilha, um esquema, uma mera violência. O que vem é a minha correntinha na mão de uma pessoa, na sua mão.

Sua mão retirou de mim um objeto que me foi dado com muito amor e que me acompanhou durante vários anos.

Procurei identificar dentro de mim o que sentia. Tentei ver se era raiva, mas não é. O que sinto é uma imensa tristeza. Tristeza por você, que provavelmente nunca pôde experimentar na sua vida o sabor de receber um presente de alguém especial.

Choro, senhor ladrão, pelo desafeto que provavelmente sempre lhe acompanhou e espero sinceramente que o brilho da minha pequena cruz te faça ter vergonha pela covardia do seu ato.

Que essa carta um dia possa passar pelos seus olhos e que você saiba que finalmente alguém sentiu tristeza por você. Pois uma pessoa que tem a covardia de abrir a mala de alguém e retirar dela algo que não lhe pertence e que você nem mesmo sabe a história e a importância que tem para seu dono, provavelmente nunca teve amor na vida.

Uma pena.

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