26 de Maio de 2017

A injustiça do amor e do ódio no futebol

É tão engraçado ver o futebol do “lado de fora”. Passamos a ter um olhar bem diferente daquele de quando somos torcedores. Como contei aqui outro dia, eu já fui MUITO apaixonada pelo esporte, esse ano estou até voltando a assistir os jogos, mas ainda não voltei a ser a torcedora que já fui um dia. Estava vendo com Vinicius o jogo que fomos eliminados da Libertadores e senti aquela pontinha de raiva. Mas nada que me deixasse irada como ficava anos atrás. Mas ao ouvir os comentários de alguns torcedores, jornalistas e até do Vi, fiquei pensando em como o futebol é injusto. Como o amor e o ódio caminham lado a lado nesse esporte e como esses sentimentos são tão frágeis. Bastou um deslize para que o ídolo vire o monstro.

Estávamos indo muito bem nesse início de ano. Não ganhamos nenhuma taça – quem se importa com elas? -, mas ganhamos o título Carioca. Na Libertadores, tudo também estava parecendo funcionar. O técnico foi cada vez mais caindo nas graças da torcida e dos comentaristas esportivos e até mesmo alguns jogadores que não eram queridinhos da galera, passaram a surpreender.

Ah, mas aquela fase de amor acabou assim que o juiz apitou o final do jogo e uma eliminação na Libertadores aconteceu. Um menino que tinha ido muito bem na base, acabou falhando logo naquele jogo profissional, logo na eliminação e se transformou em um monstro para a torcida.

“Cortem-lhe a cabeça”!!!!

E o mesmo para o técnico.

“Errou. Não fez o que tinha que fazer. Já não presta mais. Joga fora e arruma outro, por favor!”

Tá, tá! Me desculpem! Como disse antes, não acompanho mais futebol como antes e posso estar cometendo também um deslize aqui ou outro ali nos meus comentários sobre jogadores e técnicos. Mas que o futebol é injusto, isso é indiscutível!

Se o resultado tivesse sido outro… Ah, o amor estaria no ar! Ninguém teria reclamado da retranca sem vergonha que o técnico quase desesperado resolveu armar do meio do segundo tempo para o final. Estaria tudo certo. Uma decisão acertada! Fechou o gol para evitar que o pior acontecesse.

Já dizia minha mãe que “quem não faz, leva”, mas como o futebol é uma caixinha de surpresas, tudo pode acontecer. E se a retranca tivesse dado certo, estaria tudo bem.

No jogo dessa quarta da Copa do Brasil, lá foi o técnico mais uma vez colocar o menino em campo. Aquele mesmo que virou o terror da torcida. E o que aconteceu? Gritos de “burro, burro” ecoaram pelo estádio. Se para o treinador já não deve ter sido a melhor coisa do mundo de se ouvir, imagina para o menino!!

Mesmo sendo novo, mesmo jogando em um time gigante, mesmo vendo que o que aconteceu na derrota anterior poderia acontecer ali, ele não fingiu uma dor de barriga, uma pancada na perna ou coisa do tipo. Ele entrou grande em campo. Sem apoio da torcida, provavelmente sem aquela confiança interna que todo mundo precisa ter para realizar um bom trabalho, ele jogou. E quando teve a oportunidade, entrou com a bola dentro do gol.

E ali a gente viu uma cena de alguém que tira um peso gigante das costas. Um alívio, um choro, um desabafo. Talvez com a torcida ainda não seja amor, mas o ódio também vai ficar um pouco menor, mais fraco e se em um ou dois jogos ele não falhar e tiver a sorte de marcar… Que coisa linda! Que promessa! Que geração boa que chegou para ficar!!

O futebol não é como o amor, não é como a realidade de nenhuma profissão, não é como a política. Futebol é muito mais do que tudo isso. No futebol, milhares de pessoas querem a perfeição. Se o erro acontece, nem mesmo um ídolo está livre das vaias, dos xingamentos, das críticas. Se não for ídolo então… Aí é que vão pegar no pé mesmo.

Corajosos são aqueles que entram em campo e vestem a camisa de um time grande. Não deve ser fácil quando todos esperam que você seja um super-herói e você sabe que é apenas um garoto querendo “brincar” com uma bola. Não deve ser fácil ser o responsável pela alegria ou tristeza de pessoas que acreditam que o clube é a coisa mais importante da vida e que quem veste aquela camisa, deve ser perfeito, o melhor. Não deve ser fácil não poder errar, quando o mesmo sofre todos os jogadores do time adversário. Sempre existirá uma eliminação, uma falha, um gol contra, um erro, um escorregão.

Mas no futebol poderia ter menos ingratidão. Torcedores devem lembrar que alguém tem que perder e que vez ou outra será o seu próprio time. Em campo estão pessoas normais, que acertam e erram. Não dá para ser perfeito o tempo todo, não é mesmo? E se pudesse, que graça o esporte teria?  Toda a graça está justamente pelas falhas que podem acontecer, transformando tudo isso naquela tão falada caixinha de surpresas. O imprevisível é mais gostoso e por isso a gente torce. Mas seria bom se pudéssemos ser menos injustos. Fiquei com pena do menino. Mas ainda bem que ele conseguiu tirar aquele peso dos ombros.

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05 de Maio de 2017

Variação sobre um Tema Antigo – Rubem Alves

Depois de ler “Variação sobre um tema antigo” de Rubem Alves não resisti. Precisava trazer essa crônica completa para vocês. Acho que é a primeira vez que faço isso aqui no blog. Normalmente, pego citações que mais gosto e coloco na coluna Entre Aspas, para dividir com vocês tudo o que aprendi nos livros que li.  Rubem Alves tem o dom de tocar fundo na minha alma e cada um de seus textos vão me enchendo de uma coisa boa, gostosa.

Essa crônica em especial “Variações de um tema antigo” é algo que eu acho que todo mundo precisa ler e guardar para si. Muitas vezes desejamos tanto que não vamos percebendo as coisas que conquistamos ao longo do caminho e passamos a desejar cada vez mais. Conquistamos e aquilo já não nos serve. Queremos o pedaço maior, a coisa mais bonita e por aí vai… Confiram:

“Era uma vez um pobre pescador e sua mulher. Eram pobres, muito pobres. Moravam numa choupana à beira-mar, num lugar solitário. Viviam dos poucos peixes que ele pescava. Poucos porque, de tão pobre que era, ele não possuía um barco: não podia aventurar-se ao mar alto, onde estão os grandes cardumes. Tinha de se contentar com os peixes que apanhava com os anzóis ou com as redes lançadas no raso. Sua choupana, de pau-a-pique, era coberta com folhas de palmeira.

Quando chovia, a água caía dentro da casa e os dois tinham de ficar encolhidos, agachados, num canto. Não tinham razões para ser felizes. Mas, a despeito de tudo, tinham momentos de felicidade. Era quando começavam a falar sobre os seus sonhos. Algum dia ele teria sorte, teria uma grande pescaria, ou encontraria um tesouro – e então teriam uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, um canário na gaiola e galinhas no quintal. Mas eles sabiam que a casinha branca não passava de um sonho. Por vezes a felicidade se faz com sonhos impossíveis. E assim, sonhando com a impossível casinha branca, eles faziam amor e dormiam abraçados.

Era um dia comum como todos os outros. O pescador saiu muito cedo com seus anzóis para pescar. O mar estava tranqüilo, muito azul. O céu limpo, a brisa fresca. De cima de uma pedra lançou o seu anzol. Sentiu o tranco forte, peixe preso no anzol. Lutou. Puxou. Tirou o peixe. Escamas de prata com barbatanas de ouro. Foi então que o espanto aconteceu. O peixe falou. “Pescador, eu sou um peixe mágico. Devolva-me ao mar que realizarei o seu maior desejo”. O pescador resolveu arriscar. Um peixe que fala deve ser digno de confiança. “Eu e minha mulher temos um sonho”, disse o pescador. “Sonhamos com uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, galinhas no quintal, canário na gaiola. E mais, roupa nova para minha mulher”. Ditas essas palavras ele lançou o peixe de novo ao mar e voltou para casa, para ver se o prometido acontecera. De longe, no lugar da choupana antiga, ele viu uma casinha branca e, à frente dela, a sua mulher com um vestido novo – tão linda! Começou a correr, e enquanto corria pensava: “Finalmente nosso sonho vai se realizar! Finalmente vamos ser felizes!”

Foi um abraço de felicidade. A felicidade dela era completa. Mas não estava entendendo nada. Queria explicações. E ele então lhe contou do peixe mágico. “Ele disse que eu poderia pedir o que quisesse.” Houve um momento de silêncio. O rosto da mulher se alterou. Cessou o riso. Ficou sério. Ela olhou para o marido e, pela primeira vez, ele lhe pareceu imensamente tolo: “Você poderia ter pedido o que quisesse? E por que não pediu uma casa maior, mais bonita, com varanda, três quartos e dois banheiros? Volte. Chame o peixe. Diga-lhe que você mudou de idéia.” O marido sentiu a repreensão, sentiu-se envergonhado. Obedeceu. Voltou. O mar já não estava tão calmo, tão azul. Soprava um vento mais forte. Gritou: “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: o que é que você deseja?

O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido uma casa maior, com varanda, três quartos e dois banheiros!” O peixe lhe disse: “Pode ir. O desejo dela já foi atendido.” De longe o pescador viu a casa nova, grande, do jeito mesmo como a mulher pedira. “Agora ela está feliz”, ele pensou. Mas ao chegar a casa o que ele viu não foi um rosto sorridente. Foi um rosto transtornado. “Tolo, mil vezes tolo! De que me vale esta casa neste lugar ermo, onde ninguém a vê? O que eu desejo é um palacete no bairro elegante de uma cidade, dois andares, banheiros de mármore, escadarias, fontes, piscina.

VoIte! Diga ao peixe desse novo desejo!”

O pescador, obediente, voltou. O mar estava cinzento e agitado. Gritou: “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: “O que é que você deseja?” O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palacete num bairro rico da cidade”. Antes que ele terminasse, o peixe disse: “Pode voltar. O desejo dela já está satisfeito.” Depois de muito andar – agora ele já não morava perto da praia, ele chegou à cidade e viu, num bairro rico, um palacete tal e qual aquele que sua mulher desejava. “Que bom”, ele pensou. “Agora, com seu desejo satisfeito, ela deve estar feliz, mexendo nas coisas da casa.” Mas ela não estava mexendo nas coisas da casa. Estava na janela. Olhava o palacete vizinho, muito maior e mais bonito que o seu, do homem mais rico da cidade. O seu rosto estava transtornado de raiva, os seus olhos injetados de inveja.

“Homem, o peixe disse que você poderia pedir o que quisesse. Volte. Diga-lhe que eu desejo um palácio de rainha, com salões de baile, salões de banquete, parques, lagos, cavalariças, criados, capela.”

O marido obedeceu. Voltou. O vento soprava sinistro sobre o mar cor de chumbo. “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: “O que é que você deseja?” O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palácio com salões de baile, de banquete, parques, lagos… “Volte!”, disse o peixe antes que ele terminasse. “O desejo de sua mulher já está satisfeito.”

Era magnífico o palácio. Mais bonito do que tudo aquilo que ele jamais imaginara. Torres, bosques, gramados, jardins, lagos, fontes, criados, cavalos, cães de raça, salões ricamente decorados … Ele pensou: “Agora ela tem de estar satisfeita. Ela não pode pedir nada mais rico.”

O céu estava coberto de nuvens e chovia. A mulher, de uma das janelas, observava o reino vizinho, ao longe. O céu estava azul. Fazia sol. Ao longe se viam as pessoas alegremente passeando pelo campo.

“De que me serve este palácio se não posso gozá-Io por causa da chuva? Volte, diga ao peixe que eu quero ter o poder dos deuses para decretar que haja sol ou haja chuva!”

O homem, amedrontado, voltou. O mar estava furioso. Suas ondas se espatifavam no rochedo. “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” – ele gritou. O peixe apareceu. “Que é que sua mulher deseja?”, ele perguntou. O pescador respondeu: “Ela deseja ter o poder para decretar que haja sol ou haja chuva!”

O peixe falou: “Vou lhes dar uma coisa melhor: vou lhes dar a felicidade!” O homem riu de alegria. “É isso que eu mais quero”, ele disse. “Volte”, disse o peixe. “Vá ao lugar da sua primeira casa. Lá você encontrará a felicidade”. E, com essas palavras, desapareceu. O pescador voltou. De longe viu a sua casinha antiga, a mesma casinha. Viu sua mulher, com o mesmo vestido velho. Ela colhia verduras na horta. Quando ela o viu, veio correndo ao seu encontro. “Que bom que você voltou mais cedo”, ela disse com um sorriso. “Sabe? Vou fazer uma salada e sopa de ostras, daquelas que você gosta. E enquanto comemos, vamos falar sobre a casinha branca com janelas azuis”. Ditas essas palavras ela segurou a mão do pescador enquanto caminhavam, e eles foram felizes para sempre”.

Perceberam? É uma crônica para pensar, refletir e guardar sempre com carinho. Acho que devemos agradecer por tudo o que conquistamos ao invés de viver pedindo sempre mais e mais. Bom final de semana para todos vocês.

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