03 de Dezembro de 2015

Conto: A Magia do Natal – 2ª parte

*Ainda não leu a primeira parte do conto A Magia do Natal? Clica aqui e confira!

Pensei nas palavras da minha avó, que foram ditas logo depois de todos se abraçarem desejando Feliz Natal.

– Minha querida – chamou, antes que eu descesse as escadinhas da varanda, que levavam direto para a areia da praia – aproveite o silêncio para repensar a sua vida. Você sempre foi uma menina linda de aparência e coração. Precisa encontrar aqui – pousou a mão no peito – a sua paixão, as suas verdades. Já não vejo mais aquele brilho nos seus olhos. Não deixe que São Paulo transforme a sua vida apenas em ambições e aparências. A gente não é nada sem amor. Nem o melhor trabalho, nem o marido mais bonito e bem sucedido de todos, trazem felicidade se você não tiver paixão por eles.

Ia defender o Marcelo e dizer que adorava o meu trabalho, mas vovó nem me deu tempo para isso. Assim como fazia desde quando eu era pequena, deu um tapinha na minha bunda e me expulsou abanando as mãos.

– Reflita, fale com as estrelas, com o mar e pense que esse é o meu presente de Natal para você. Pode ficar aí fora o tempo que quiser. Não precisa se preocupar com nada. Aqui é tranquilo tanto quanto aparenta ser.

Florianópolis

Fechei os olhos. A voz da minha avó parecia ecoar na minha cabeça. Sempre muito calma, dona de toda a sabedoria do mundo, me encantava desde pequena. Quando soube que ela se mudaria, senti uma tristeza enorme. Era como se estivesse perdendo a bússola da minha vida, aquela pessoa que sempre me orientava quando estava perdida.
No fundo, sabia que não estava amargurada pela escolha da cidade que ela decidiu morar. A verdade era que guardava uma espécie de mágoa por ter me sentido abandonada quando ela decidiu partir. Tudo virou motivo para que aquela parecesse ser a pior opção de mudança, a ideia mais detestável para a noite de Natal.

E o Marcelo colaborou com aquilo. Durante vários dias insistiu em dizer que eu já era adulta e não precisava fazer o que os meus pais queriam que eu fizesse. Repetiu inúmeras vezes que era uma maluquice permitir que vovó morasse sozinha, tão longe da gente. E não poupou palavras para acrescentar que com a idade que tinha, ela já não devia bater tão bem da cabeça. Como estava ferida com aquela decisão, concordei com tudo e ainda me deixei alimentar com todas aquelas opiniões que fizeram aumentar ainda mais a minha mágoa.

Mas agora, sentindo a brisa que vinha direto do oceano, no silêncio que me encontrava, sabia que era extremamente egoísta da minha parte querer ter vovó por perto quando ela tinha todo aquele mar, aquela calma e aquele clima para embalarem noites de sono mais tranquilas, uma vida menos agitada e um lugar que ela pudesse saber o nome de todos os vizinhos e que os transformasse em amigos.

Uma confusão completa se instalava na minha cabeça. Peguei o telefone para ligar mais uma vez para o Marcelo e quando ouvi a voz da mensagem eletrônica, joguei o celular longe.

Meu. Deus. Do. Céu! O que foi que eu fiz?

Com a escuridão da praia, seria impossível encontrar o meu celular na areia. Tinha jogado com força, de tanta raiva e demoraria horas para conseguir achar. Se é que encontraria. Apoiei a cabeça nas mãos e senti mais e mais lágrimas rolarem pelo meu rosto. Deixei que o choro viesse ainda mais forte. Ninguém iria me escutar, não tinha motivo algum para me envergonhar.

– Você vai acabar se arrependendo de ter jogado fora.

Tremi da cabeça aos pés. Na minha frente, com o celular estendido para mim, estava um cara moreno, de olhos castanhos, cabelo cacheado, vestindo bermuda e camiseta. Fiquei sem saber o que fazer. Não sabia se corria ou se gritava. Estava atônita.

Continua amanhã.

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