07 de Dezembro de 2015

Conto: A Magia do Natal – 4ª parte

Se você perdeu a parte 3 do conto A Magia do Natal, é só clicar aqui! <3

– De que maneira? – perguntei, curiosa.

– Faço uma coisa que gosto e não preciso me matar de trabalhar para sobreviver. Já estou com 32 anos, são quatro anos na ilha, se a gente pensar bem, não é um tempo tão grande, mas já consegui me estabelecer e construir uma vida do jeito que sempre quis.

– O que você faz no restaurante?

– Faço a comida, atendo os clientes, fecho as contas. Tudo. No verão, até contrato alguém para me ajudar, mas nas outras estações não existe essa necessidade. São apenas os moradores que comem lá e sempre aparece um ou outro turista perdido.

Casal Floripa

– E mesmo assim consegue se manter?

– Não preciso de muito por aqui. E os preços também são infinitamente menores.

– Você trabalhava com o quê no Rio?

– Sou formado em engenharia, trabalhava na área naval. Vivia embarcado. Ganhava bem, trabalhava em uma grande empresa, mas não tinha a vida que queria.

– E resolveu largar a estabilidade por um risco? – perguntei sem acreditar. Quem fazia aquele tipo de coisa era muito inconsequente.

– Sim – olhou na minha direção, para ver a minha reação. – Você também pensa como os meus pais, né? Que isso é uma maluquice.

– Desculpa – não consegui disfarçar.

– A maioria das pessoas pensa assim. Principalmente aquelas que moram em São Paulo, Rio de Janeiro. É uma competição eterna e depois de um tempo, todo mundo está viciado nisso. É importante ter cada ver mais e ser cada vez menos.

– Isso não é verdade – achei que precisava me defender.

– Quantos anos você tem?

– Trinta.

– E o que você faz?

– Sou publicitária. Amo a minha profissão, adoro a vida que levo.

– Quantas vezes na semana você precisa ficar no escritório além do horário do seu expediente?

– Praticamente todos os dias, mas sou paga pelas horas extras.

– Está vendo? Tudo é pelo dinheiro. Você ganha mais, mas quando aproveita? Quando viaja? Quando respira um ar puro? Quando tem tempo de ver o pôr do sol? E o nascer do dia?

– Mas você acha mesmo que todas essas coisas são mais importantes do que construir uma carreira sólida, uma estabilidade financeira?

– Você não acha?

– Não. No futuro vou ter dinheiro e tempo para todas essas coisas, enquanto sou nova, preciso construir a minha vida.

– E se não tiver tempo no futuro? É lógico que espero que isso não aconteça, mas a gente nunca sabe o dia de amanhã. Acho horrível essa mania que as pessoas têm de adiar tudo. Você pode nunca conhecer um lugar que sempre sonhou em visitar, pode não falar mais com pessoas que deixou para falar no dia seguinte, pode não ter mais a possibilidade de responder aquele e-mail de um amigo que deixou de lado para responder os de trabalho. Sei que tudo isso parece meio clichê, mas é o que realmente acontece. As pessoas simplesmente estão deixando de lado o que amam, só pensando em enriquecer mais e mais.

– Mas não dá para ser inconsequente.

– Olha só, como é o seu nome mesmo?

– Jéssica. E o seu?

– Theo – estendeu a mão e eu apertei. Ele tinha mãos grandes e ásperas, provavelmente de trabalhos manuais. – Prazer. Então, como estava dizendo, ser inconsequente algumas vezes na vida, faz tudo valer a pena. Uma vida regrada não vai te dar grandes histórias.

– Não sei se concordo – suspirei e olhei para o celular. Minha mão estava coçando para ligar mais uma vez para o Marcelo.

– É o seu namorado?

– Oi? – perguntei, sem entender o que ele estava querendo saber.

– O choro, arremessar o celular longe e agora esse olhar perdido para o visor apagado… o motivo de tudo isso é o namorado?

Não queria parecer boba para um cara que eu nem conhecia.

– Provavelmente o celular dele acabou a bateria – disse, já na defensiva.

– Hum… Por que ele não veio com você?

– Ele é totalmente contra essa mudança da minha avó. Também não queria que eu tivesse vindo. Hoje, era para eu estar com ele em uma festa de Natal muito badalada de São Paulo. Foi difícil conseguir os convites e ele ficou muito chateado quando disse que não poderia ir.

– Como ele pode ser contra uma coisa que nem conhece? Aposto que a vida da sua avó aqui está sendo muito mais relaxada do que antes.

– Pacata, você quer dizer.

– É sério que você não gosta daqui? – perguntou, me olhando nos olhos.

– É sério que você gosta?

– Eu amo esse lugar – abriu os braços e apontou para o mar. – E pode ter certeza que a dona Amélia está muito feliz aqui. Todos adoram a sua avó.

Sorri e senti o coração aquecer com aquela informação. Acima de tudo, o que mais queria era que vovó estivesse bem e feliz.

– Que bom – falei bem baixinho e me abracei para me proteger do frio.

Continua amanhã! =) Estão gostando da Magia do Natal?! =)

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