25 de Julho de 2016

Dia do escritor – Algumas palavras sobre o meu amado Saramago

Eu AMO Saramago. Todo esse amor começou não faz muito tempo. Antes de me apaixonar pelo jeito que ele escreve, me apaixonei primeiro pela pessoa que ele foi. Lembro até hoje que estava na sala da casa da minha mãe – que ainda era minha também, pois não tinha casado – e estava escrevendo o meu primeiro romance.

Ficava irritada com a falta de espaço para as minhas criações quando não estava sozinha. Minha mãe não conseguia me ver em casa sem chamar a minha atenção para alguma coisa. E lembro perfeitamente que aquele dia ela queria me convencer a assistir o filme que havia alugado no vídeo.

saramago 1
– Pô, mãe! Você ainda não entendeu que estou trabalhando? Preciso terminar o meu livro!

– Ah, só um pouquinho! Assiste comigo… São só duas horinhas, você não vai se atrasar tanto se fizer isso.

Bufei e continuei na mesma posição. Não tinha interesse, naquele momento, em assistir a um documentário sobre a vida do Saramago, principalmente por não ter lido nada dele até aquele dia. Ela fez bico, mas foi ver o filme sozinha. Na mesma sala que eu estava escrevendo.

– O som vai te atrapalhar? – perguntou “inocentemente”.

– O que você acha? – resmunguei.

Dando de ombros, afinal ela estava na casa dela e na sala dela, colocou o filme para rolar. Enquanto isso, eu tentei me concentrar no que estava escrevendo. Mas aí ouvi aquele sotaque português com palavras totalmente compreensíveis para mim. E não pude deixar de prestar atenção ao início daquele documentário, que já começava com todas as dedicatórias que Saramago havia feito para sua esposa, muito mais nova que ele, Pilar.

“A Pilar, que ainda não havia nascido, e tanto tardou a chegar”.

Opa! Alguma coisa já despertou dentro de mim. Que dedicatória!! Que coisa mais linda!!

Depois daquilo, não consegui mais olhar para a página do word. Salvei o arquivo e fui correndo sentar ao lado da minha mãe para conhecer um pouco mais da história daquele escritor tão polêmico, que muitas pessoas odeiam, por sua visão política e religiosa, mas que já naquele início de filme parecia ser incrivelmente verdadeiro e com reflexões de tirar o ar, como um soco no estômago, falando de verdades que muitas vezes não queremos ouvir, mas que analisando melhor são muito coerentes.

Fui me deliciando com o jeito de Saramago e com a linha dura e firmeza da Pilar. Fui me apaixonando por aquele velhinho. Sorri ao perceber tantas coincidências entre O cara da literatura e eu, que estava apenas começando a traçar o meu caminho nesse mundo. Quando ele abriu o jogo da paciência e colocou uma música para tocar, buscando inspiração, senti um frio na barriga de ver que não importa a idade, não importa o tempo de experiência,nem as diferenças culturais, todo escritor tem algo de parecido na hora que vai criar.

Me emocionei com o que ele dizia, pensava, com as entrevistas que deu e as expressões daquele olhar. E o que dizer do amor de Saramago por Pilar, o respeito que um demonstrava ter pelo outro? Tão lindo, tão forte…

Quando o documentário acabou senti uma necessidade enorme de conhecer mais de Saramago e até mesmo de Pilar. Comprei a coleção de livros dele, que ainda estou lendo. Não são livros para serem devorados em uma semana. São livros que precisam ser apreciados calmamente para que se consiga absorver cada palavra, cada pensamento, cada sutileza colocada ali.

E aquele documentário que eu bati o pé dizendo que não assistiria, já assisti outras dez vezes depois. Tenho necessidade de ser preenchida pelas palavras de Saramago. Acho que é uma maneira de manter o olho aberto para o mundo, para as verdades que guardo dentro de mim, para manter a minha vontade de sempre me colocar com as minhas posições, sobre o que eu penso, mesmo que seja tão diferente do que a maioria acredita.

Mas por que estou falando sobre isso e escrevi um texto tão grande assim? Porque estou lendo mais um material desse escritor que mexe tanto comigo. Estou lendo uma coletânea de entrevistas dadas por ele ao longo da vida e bati o olho em uma declaração que, mais uma vez, fez meu sangue circular mais rápido e me deixou com vontade de escrever…

“Por que é que eu me hei de calar quando acontece alguma coisa que mereceria um comentário mais ou menos ácido ou mais ou menos violento. Se andássemos por aí a dizer exatamente o que pensamos – quando valesse a pena – teríamos outra forma de viver. Estamos numa apatia que parece que se tornou congênita e sinto-me obrigado a dizer o que penso sobre aquilo que me parece importante”.

Ah, Saramago! Muito obrigada por você nunca ter se calado, por ter dito tanta coisa por aí, por ter escrito tantas histórias incríveis e por ter feito provocações que fazem com que a gente não consiga ficar parado. Obrigada e é uma pena que você já não esteja mais por aqui, estamos precisando de mais palavras como as suas.

E sobre o documentário que fez com que eu me apaixonasse por Saramago? Está aqui, não deixem de assistir.

PS: Amanhã eu volto com o especial Bela da Bola.

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