18 de Novembro de 2016

Estou me sentindo quase sozinha no mundo

mudanca

Pensei, pensei, pensei… Escrever ou não escrever o que estou sentindo? Sabe, tenho fugido de polêmicas, de me expressar, de dizer o que penso. Estava quase colocando o Marido Cozinha no ar, mas não conseguia terminar. Era essa a postagem de hoje. Mas como posso colocar uma receita ou qualquer outra coisa, quando estou sentindo uma coisa tão doída dentro de mim? Como posso falar sobre qualquer outra coisa, quando na verdade estou com vontade de chorar?

Um dia, há muito tempo, uma velhinha me parou no Campo de São Bento, me olhou e disse: “Você precisa ter cuidado com você, pois você é muito sensitiva, sensível, qualquer um pode perceber isso. Trabalhe isso em você”. Acho que até então não tinha entendido muito bem o que ela queria dizer. Mas hoje eu acho que entendo.

As coisas não precisam acontecer comigo para que eu sinta. Não precisa ser a dor da minha família, de alguém próximo ou de um conhecido para que seja doída em mim. Me dói muito quando vejo que a raiva, o ódio, a sede de vingança são os sentimentos dominantes na maioria das pessoas. Me sinto muito, muito só.

Para todo lado que olho, vejo discursos de ódio. As pessoas pararam de escutar, elogiar, respeitar. O bom senso, a empatia, o amor parece que desapareceram. As justificativas para isso são várias, a principal é: “Os políticos fizeram isso com a gente e agora nós é que vamos fazer isso com eles”.

E no meio de uma cena de verdadeiro desespero de uma filha vendo o pai sendo preso , as pessoas comemoram. “É tudo encenação!”, “Eles estão tendo o que merecem”, “Tá com pena, leva para casa”, “É a lei do retorno”, “Estão recebendo tudo aquilo que fizeram o povo passar”.

Estamos doentes. Todos nós.

Acredito que todos nós sentimos a mesma “alegria” quando recebemos a notícia da prisão de políticos que comprovadamente cometeram crimes. É a sensação de que finalmente a justiça está sendo feita pra quem até então não era punido por nada.

Mas sentir prazer com o espetáculo armado em cima disso, acho que é triste demais. Sádico. Rir, bater palmas, comemorar o sofrimento de alguém, é doente. Um erro não pode ser justificado com outro. O mal não pode ser  combatido com ódio, caso contrário, será o mal que estará continuando a se perpetuar.

Fiquei assustada com o que vi antes de dormir, senti uma angústia enorme com tantas risadas, felicidade por uma cena tão decadente. Senti uma tristeza profunda ao perceber como falta amor.

Não digo que senti pena dos envolvidos. Acho mesmo que eles precisam devolver o que roubaram e devem ficar presos, cumprindo pena pelo crime que cometeram. Acho que todos os que ainda estão soltos e que, comprovados os crimes, devem mesmo ir para a prisão. Mas jamais vou assistir a tudo isso como um espetáculo de entretenimento.

Hoje me sinto mais triste, com menos esperança, com muito medo do que estamos construindo. Olho para os lados, vejo pessoas bem próximas levantando a bandeira da intolerância, do preconceito como se isso tudo fosse normal. “Se meu filho for gay, enfio a porrada para ele se endireitar”, “Na escola do meu filho, não”, “direitos humanos é defender bandido”, “bandido bom é bandido morto”… E aí eu vou ficando cada vez mais só.

Tento escrever sempre sobre o amor, tento compartilhar boas ideias, boas iniciativas, boas histórias. Tento visitar escolas e mostrar como os livros podem nos ajudar a sonhar e realizar. Tento não perder a esperança. Tento acreditar. Tento brigar com a minha cabeça e voltar a pensar, quando me vejo recebendo todas essas doses diárias de desesperança. Está difícil. Estou me sentindo sozinha. E isso dói pra caramba.

Sei que não devia dizer nada disso. Sei que no mundo intolerante de hoje, as minhas palavras podem parecer ofensa. Mas se eu não dissesse aqui o quanto estou triste, estaria sendo muito, muito superficial. E isso, eu não consigo ser. Dói mesmo e eu precisava dizer isso.

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