02 de Outubro de 2015

Eu assumo: Morro de medo de avião

Não foi trauma e nem mesmo um medo de criança. Pelo contrário, quando era pequena adorava viajar de avião. E não foram poucas as vezes em que estive no ar. Conheci diversas cidades pelo Brasil. Subi e desci inúmeras vezes em aviões de diversas companhias e tamanhos, nunca passei nenhum aperto, susto ou perrengue. Era tão corajosa que adorava fazer amizades durante o voo com aeromoças só para que me levassem na cabine do piloto, amava estar naquele lugar tão especial.

avião

E o que mudou?

Não tenho a menor ideia! Só sei que de repente, não mais que de repente, entrar em um aeroporto me causava calafrios. Dava desculpas e dispensava viagens só para não ter que ficar algumas horinhas sentada naquele lugar que anos antes não me causava a menor estranheza. Viajar de avião passou a ser um pesadelo. E desde então quando não dispensava viagens, criava maneiras para não morrer de medo.

Foi assim que fui para São Paulo, Porto Alegre, Argentina e alguns outros lugares. Inventando métodos para distrair a mente. Fiz inúmeras pesquisas na internet e não consegui achar muitas soluções para esse pavor tão chato. E descobri também que muitas pessoas sofrem do mesmo medo, mas não assumem. Como se temer o avião fosse um grande motivo de vergonha.

Sabendo desse meu pequeno pânico, os amigos tentam ajudar: “toma dramin”, outros já são mais drásticos “um tarja preta resolve o problema”. Mas não sou muito adepta a tomar remédios sem um motivo realmente necessário, e acabo tentando soluções mais naturais. Já tentei ler, ouvir música, conversar com a pessoa ao lado… Mas nada disso foi eficaz. Apenas duas táticas deram certo: Passar a noite anterior sem dormir, o corpo não aguenta e por maior que seja o medo o olho pesa e o sono chega no avião.

avião 2

A outra ideia mirabolante foi a que usei na volta da minha lua de mel. A ida foi a pior possível para quem é medrosa como eu: o embarque estava vazio, foram apenas umas 40 pessoas no voo. Pegamos um ônibus para pegar o avião na pista. Ali já comecei a olhar os rostos das pessoas e imaginar as histórias e as manchetes dos jornais. É terrível, mas já conheci outras pessoas que também pensam as piores coisas quando vão voar. Tentei mudar o rumo do pensamento – lembrei do livro O Segredo -, mas foi impossível pensar positivo quando olhei o avião. Era um modelo pequeno da Webjet (compramos Gol) e o pavor tomou conta de mim. Entrei e já avisei para a aeromoça que morria de medo de voar, perguntei se serviam vinho e com o jeito mais antipático e nada solidário ela respondeu que não tinham nada alcoólico na aeronave. Chorei, me agarrei na mão e no pescoço do meu marido, passei por duas pequenas turbulências, não consegui pregar o olho, mas cheguei vivinha em Buenos Aires. Quando freou, tive uma verdadeira crise de riso por todo o medo que senti ali. Quando tocamos o solo é que caímos na real de como o medo é uma coisa muito pior na nossa cabeça do que um perigo de fato.

Mas para não passar outro desespero na volta, resolvi tentar uma tática que alguns tinham me orientado a fazer: beber vinho. E não é que dá certo? Foi a primeira vez que estive em um aeroporto sem sofrer de dor de barriga, tremedeira e vontade de chorar. Hum… Tá certo que não bebi apenas vinho – Foi meia garrafa na hora do almoço, um litro de Quilmes antes de passar pela imigração e comprei uma garrafinha de Amarula no Free shop para garantir um conforto se o medo atacasse na hora do voo. Anestesiada, consegui relaxar, dormir, curtir o pôr-do-sol e até mesmo cantar um pouquinho enquanto passava pelas nuvens. A viagem foi bem melhor.

O medo continua, mas já coloquei na minha cabeça que não vou dispensar mais nenhuma viagem. Amo conhecer lugares e culturas, não posso deixar que esse pavor tão sem lógica – são milhares de voos por dia e os acidentes são raros – me impeça de viver novas experiências. O jeito é tentar relaxar e praticar métodos para voar tranquila. Vinho? A noite anterior sem dormir? Livros? Filmes? O pescoço do marido? Não importa. O importante mesmo é – com medo ou sem medo – arrumar a mala e conhecer o mundo.

*detalhe para a Fernanda mirim sorridente e corajosa, e a Fernanda grande rezando de tanto medo, sem nem mesmo ter coragem de se mexer muito na poltrona apertada do avião

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