14 de Outubro de 2016

A janela da frente

Na frente do meu quarto, do outro lado da rua, tem um prédio. A distância entre o meu e o outro é de uma rua e duas calçadas. Ou seja, acaba a privacidade de todo mundo e cortinas precisam estar sempre fechadas, certo?! Essa é uma das coisas pra lá de chatas da cidade grande. É quase impossível você ter uma janela para o infinito, para a paisagem, sem nada na sua frente. 
biblioteca-nacional

Moro em um andar que não é tão alto, nem tão baixo. E, como adoro o pôr-do-sol, sempre que estou em casa nesse horário, corro para a janela para olhar a paisagem que ainda consigo ver daqui, do meu cantinho. E não é que em um desses dias, depois que o sol já havia se despedido, por acaso vi uma janela com a luz acesa, bem na minha direção e meu olhar ficou parado ali?

Não que toda cortina aberta seja um convite a uma espiadinha. Mas não existia maneira de resistir naquele dia. O ambiente todo iluminado, com a cortina pela metade, era cheio de livros. Livros de todos os tipos recheavam toda a parede do chão ao teto. Todo tipo de cores, de espessura. Na frente da enorme estante, uma mesa. Essa também recheada de livros. Seria uma cortina aberta propositalmente? Quem não teria orgulho de todos aqueles livros? De possuir em sua própria casa uma biblioteca particular? Quem seria o dono daquele lugar que eu desejava ter para mim?

Enquanto conversava com meu marido, vi o feliz proprietário daquele lugar maravilhoso. No mesmo instante deixei de ouvir toda a conversa e a minha mente voou.

– Ei, amor… Está sonhando acordada? – Meu marido me chamou quando viu que não prestava atenção em mais nada.

Mostrei a janela para ele. Lá estavam os livros e aquele senhorzinho sentado, lendo. 

– Olha quantos livros ele tem! – Suspirei. – O que você acha que ele está lendo agora?

Meu marido me olhou, riu da minha curiosidade e não deu muita bola para as minhas divagações. Saí da janela e fiquei pensando. O que será que ele lê? E que livros são aqueles?! Gosto de imaginar que lá estão Dom Quixote, O Velho e o Mar, Anna Karenina e outros tantos livros que eu já me encantei ou que ainda desejo ler (essa é a viagem de uma escritora).

Apesar da vontade de descobrir quais títulos são aqueles, prefiro a minha imaginação. Gosto de pensar que aquela biblioteca possui livros incríveis, autores que eu amo, histórias que já encantaram aquele senhor. Tentei imaginar ele moço, rapaz, ganhando o livro de uma namorada ou de uma pretendente, de um irmão, de um amigo, de alguém da família, de um professor. Quantas viagens aqueles livros já fizeram? Quais lugares já visitaram? Quando e em que lugar foram lidos? 

Imaginei quantas dedicatórias, quantos autógrafos existem ali. Páginas amareladas com o tempo, dobradas em um cantinho para que aquela citação nunca fosse esquecida. Quase consigo sentir o cheiro daqueles livros.

O que aquele senhor faz? Não sei. E acho que prefiro nunca descobrir. Com o meu jeito romântico de enxergar as coisas, prefiro deixar aquela janela, aqueles livros e aquele senhor, como parte de uma história. Como uma página de um livro que estou lendo e que posso imaginar da forma que eu quiser. 

E um dia, espero ter a minha janela com a cortina aberta e com a minha enorme biblioteca iluminada, cheia de livros coloridos, com as histórias que tanto amo, para que alguém na janela da frente possa fazer a sua viagem. 
*Essa crônica foi escrita em 2012, quando ainda morava na casa da minha mãe.
Veja mais posts sobrebiblioteca janela leitura livro livros vida