10 de Outubro de 2015

O dia em que John Lennon morreu

Vocês já leram o livro “A última entrevista do casal John Lennon e Yoko Ono”? Eu li e posso afirmar que NUNCA mais vou ouvir as músicas dos Beatles da mesma maneira que ouvi até hoje. Antes de mais nada, explico que amo os Beatles, mas passo longe de ser uma “Beatlemaníaca”. Não sei com detalhes a história do grupo, muito menos a particularidade de cada um daqueles garotos de Liverpool. O que sei é que cresci ouvindo aquelas músicas e por esse motivo, virei uma fã apaixonada. Tão apaixonada que me emocionei em grande parte do show de Paul McCartney, que tive o privilégio de assistir, como contei aqui!
Esse livro foi o meu primeiro contato com uma história mais profunda daqueles garotos que, apesar de não fazerem parte da minha geração, sempre me deixaram encantada. Confesso que comecei sentindo uma profunda admiração por John Lennon ao ler suas primeiras considerações sobre trabalho e amor. Quando foi perguntado sobre o amor, ele disse ao repórter que este é como o carma. “Se você não faz as coisas certas durante esta vida, tem de voltar e passar por tudo isso outra vez.” 
Livro John Lennon
 
De acordo com Lennon as pessoas tendem a abandonar o barco nos momentos de dificuldade, mas ele lembra que toda relação vai passar por altos e baixos e um dia – se você tiver a sorte de encontrar outra pessoa especial para você – terá que enfrentar os problemas. Caso contrário, a vida será cheia de relacionamentos frustrados e nenhuma história profunda de amor.
Com esse pensamento, acreditei que teria uma profunda história de amor e entendimento com John no decorrer do livro. Mas não foi bem isso o que aconteceu. No decorrer da entrevista, fiquei completamente irritada e com raiva dele. O motivo? Vários. No primeiro momento, Lennon fala que após ter conhecido Yoko, ele teve forças para fazer o que já estava com vontade antes – largar os Beatles. Até aí, tudo bem. É até compreensível. Afinal, quantas vezes percebemos que chegamos ao fim de um trabalho e que se insistirmos nele já não será mais com prazer?
O problema não foi esse, mas a forma como John Lennon falou sobre isso. Ele se referiu aos Beatles como “aquela velha turma que você passa, diz um tudo bem?” e depois já não tem nada mais para dizer ou para compartilhar.  Não é um pouco estranho imaginar que aquele grupo, que encantou o mundo e diversas gerações com suas músicas tivessem tão pouco a dizer um ao outro?
Conforme a leitura prossegue, percebe-se que John mudou completamente ao encontrar a Yoko e que o fim dos Beatles parecia ter ocorrido mesmo por conta disso. A maneira como Lennon fala – muitas vezes com desdém, outras com ironia – sobre essa época da sua carreira, chega a doer em quem gosta tanto deles.
Cheguei a ficar indignada em muitos momentos. Senti raiva do John e uma vontade enorme de lhe dizer algumas verdades. Mas continuei, prossegui a leitura, blasfemando contra ele, mas seguindo em frente. Li Lennon falando sobre Paul de uma maneira que beirava o sarcasmo “Ele nunca fez nada de bom, não sabe escrever letras”. Como assim?! Mais uma vez a ira se instalava em mim. Desabafei nas redes sociais e amigos disseram “ele não sabia o que estava falando”, “estava drogado”, etc, etc, etc…
E então, seguindo com aquelas respostas, comecei a perceber que Lennon não tinha raiva de Paul, como tentava demostrar que tinha na entrevista, mas nas entrelinhas o que se via era mágoa. A mesma que ele sentia pelo abandono de sua mãe. Chegou a ser doído ler como ele fala que não lhe faltou amor e compreensão sobre a decisão de sua mãe de o deixar com a tia mais velha. Claro que ele não compreendeu. Aquilo doeu nele e o deixou com uma mágoa tão profunda que ela resvalou para seu pai – que depois de desaparecer, “só apareceu quando ele estava rico e famoso”, dos seus amigos do grupo e a mesma mágoa que deixou como herança para o seu filho Julian, que ele desejava que “conforme o menino fosse ficando mais velho, poderiam se comunicar, ter mais contato e assim o filho poderia entender o motivo dele ter partido”. Só que o mais tarde nunca chegou.
John Lennon e Yoko
Dessa forma, deixei a raiva de lado e terminei o livro com o coração apertado. Creio que Lennon enxergou em Yoko um sentimento que por toda a vida lhe escapou. Um amor de uma mulher que não era bem um amor de casal. Tanto que um dos “apelidos carinhosos” que ele lhe deu, foi de “mãe”. Mãe de “Sean”, que foi o fruto do amor dos dois, mas será que não era também um sentimento de adoração por uma imagem da mãe que ele não teve?!
Hoje, a imagem daquele grupo fica apenas na memória dos que viram e no coração de todos os que se encantaram. Se John não tivesse partido, quem sabe ele não teria amadurecido, superado o maior abandono de sua vida e hoje pudesse estar nos palcos com Paul e Ringo?! Impossível?! Não sei. Não tem como saber.
Só sei que agora, mais ainda do que antes, sinto uma enorme saudade desse grupo que não cheguei a ver. Sinto ainda mais saudade de uma época que não foi a minha. E sinto uma enorme tristeza por saber que Lennon deixou esse mundo ainda com o coração de um menino e carregando uma mágoa que nunca o libertou. Que nunca o deixou ser realmente feliz. Que pena!
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