01 de Abril de 2016

Memórias do que vivi

Depois de esbravejar aos quatro ventos sobre como estava estressada, minha mãe resolveu me presentear com um livro do Rubem Alves. “Mãe, não estou com tempo nem para ler. Tenho que fazer as coisas do escritório, atualizar meu blog, revisar um livro, cuidar da Valentina, fazer comida, limpar a casa… Simplesmente não dá!” E calmamente ela respondeu – “São apenas crônicas. Quando for deitar ou quando tiver um tempinho lê uma, depois outra e nos intervalos da sua correria você faz isso”. Apenas bufei e deixei o livro na estante. Mas ontem à noite eu olhei para ele e ele me olhou. “Ah, são apenas crônicas, dá para ler pelo menos umazinha”.

E naquele momento Rubem Alves passou a ser o meu autor favorito. Por que eu não tinha lido nada dele até então? Por quê?

Em apenas três crônicas o autor conseguiu tocar a minha alma. Como ele mesmo disse “Toda alma é uma música que se toca. Se alguém lendo o que escrevo, sente um movimento na alma, é porque somos iguais. A poesia revela a comunhão”. E foi exatamente assim que me senti, mexida, encantada, emocionada e concordando com ele a cada nova linha, a cada novo pensamento.

E em sua crônica “Uma Criança chora” ele fala “Sua alma sabe o que merece ser lembrado. Esquecem-se do que aconteceu ontem, mas se lembram do que aconteceu há muito tempo, como se fosse hoje”. Isso me fez pensar em algumas memórias que tenho da minha infância, pequenos fragmentos de um dia, que nunca soube explicar o motivo de serem lembranças como cenas de um filme. Isso também acontece com vocês?

Não são acontecimentos marcantes, nem dias inteiros. Mas pequenos flashes dos meus dias de infância são quadros que eu vejo sempre que penso em tudo o que vivi até aqui.

memórias

Da casa dos meus avós em Maricá, lembro apenas do que vejo em fotos antigas. Mas nas cenas da minha memória eu lembro de estar deitada em um quarto que ficava meio que na lateral do quintal, com um mosqueteiro, com alguém cantando para mim uma canção de ninar que era de arrepiar de medo “Tangolangomango matou sua mulher, botou no cesto e mandou vender, todos pensavam que era banana, mas era a mulher de Tangolangomango”.

Ainda da casa deles eu lembro que na sala, tinha uma portinha que levava para uma espécie de quartinho menor. Acho que tinham quadros de fotos naquela parede. E também acho que era lá que eu guardava alguma coisa minha – talvez brinquedos?

Tenho lembranças de uma menina que morava lá perto, acho que em uma casinha na frente de uma escola que era em formato de trem. Ela se chamava Carla e era minha amiga. Lembro que a gente brincava na varanda da casa dos meus avós.

Também tenho uma lembrança enorme de me sentir adulta quando falavam “Vai ali do lado e compra sei lá o quê”. Adorava ver os pintinhos que a lojinha, mercadinho, não lembro o que era, tinha aos montes. Também lembro de engradados e mais engradados de Mineirinho e acho que Grapette?

Ainda nas memórias de Maricá, lembro de uma casinha que ficava perto de um lago ou Rio, sei lá! E de como tinham pitangas naquele lugar. Nunca comi nenhuma, dava todas para a minha mãe. Também lembro de ter entrado uma vez naquela casa e conversado com alguém. Mas não lembro quem e com quem eu fui lá.

Lembro que quando ainda era bem, bem pequena, ia para o “clube” de Maricá pular carnaval. Todo mundo dançava caminhando em círculos e eu morria de pavor daquelas pessoas fantasiadas de máscaras e martelos. Lembro dos confetes e serpentinas e até do cheiro daquele salão. E como posso esquecer do Totó do bar da frente da casa dos meus avós? Eu era a campeã.

Terminando as lembranças daquele lugar, uma vez uma pipa caiu no jardim lá de casa e eu e a moça que cuidava de mim corremos para pegar e esconder. Minutos depois tocaram a campainha dizendo que viram que a pipa tinha caído lá. Meu avô, que não sabia de nada, disse que eles estavam enganados e deixou que eles olhassem no quintal. Nós duas nunca abrimos a boca para contar aquilo para ninguém e a pipa deve estar embaixo daquela cama até hoje.

Continuando a pensar nesses flashes de dias comuns do meu passado, em uma viagem para Rio das Ostras com vizinhos do prédio que morávamos, lembro de chamar meu amigo para o mar e de falar para ele que as ondas eram monstrinhos. Tínhamos que lutar contra elas. Em outro momento pegávamos areia e jogávamos no mar para alimentar os pequenos monstrinhos.

É claro que nessas lembranças não faltariam os livros. Tenho cenas tão claras na minha memória de estar deitada em uma cama – que não era a minha –  e de ouvir os meus disquinhos coloridos. Lembro tanto deles. Se fecho os olhos consigo ouvir até a voz e as musiquinhas de cada uma daquelas histórias. Patinho Feio, Pedro e o Lobo, A Cigarra e a Formiga. Também não esqueço da hora de dormir, que minha mãe lia o Pequeno Príncipe para mim. De todos os meus livros amarelos – a coleção era gigante – lembro de um em especial. A história de um velhinho que era alfaiate. Ele tinha ficado muito triste por algum motivo e durante a noite os bichinhos costuraram toda a roupa que ele precisava entregar. Lembro até do desenho e do cheiro desse livro.

Na casa dos meus avós no centro, também tenho algumas lembranças nesse estilo de flashes. Lembro de subir em uma cadeira para roubar gotinhas de Redoxon que ficavam em uma janela no alto, que dava para a área. Consigo lembrar do cheiro e do gostinho daquele remédio que me deixa com água boca até hoje. Também lembro de ganhar uma batedeira de brinquedo e de sentar em uma mesa redonda de madeira para fazer uma receita. Consigo me lembrar exatamente de como me senti adulta naquele dia.

Ah, e como não lembrar do Monteiro Lobato? Um dia, olhando a estante preta dos meus avós que ficava em uma espécie de varanda fechada – não sei que nome tinha aquele pedaço da casa, mas ficava entre a sala e a janela – achei aquela coleção de livros verdes, com capa dura, folhas amareladas pelo tempo e cheiro de velho. Por algum motivo resolvi ler mesmo assim e ali eu descobri um mundo completamente mágico das Reinações de Narizinho. Não sei como, pois era muito nova, mas lembro das figuras em preto e branco que às vezes ocupavam uma folha inteira e ficavam dentro de um quadrado, uma margem, sei lá. Lembro de olhar para a cara do Monteiro Lobato desenhada na lombada do livro e de pensar em como alguém com aquela cara séria poderia ter criado uma história tão maravilhosa quanto aquela e vivia sonhando com o dia em que uma das minhas bonecas começasse a falar como a Emília.

Ainda sobre não entender a memória seletiva dessas pequenas cenas do meu passado, de todas as vezes que fui ao Programa da Xuxa a minha maior lembrança é a de passar por trás do cenário e de entrar no estúdio. É tão forte a lembrança do cheiro e das sensações de estar naquele lugar! Muito maior do que a lembrança do programa em si.

Quando sinto alguns perfumes, lembro exatamente de pessoas, lugares e momentos.

Não sei exatamente o motivo de fechar os olhos, voltar ao passado e ter algumas dessas lembranças de dias normais tão vívidas na minha memória. Dessas pequenas cenas eu lembro de exatamente todas as sensações que experimentei com elas. Nem sempre fica claro quem estava junto, o que tinha ao redor, mas o estar ali, o fazer alguma coisa é nítido nas lembranças.

E aí vem Rubem Alves e me explica que todas essas lembranças acontecem por causa da alma que lembra de tudo aquilo que merece ser lembrado. E quando bate aquela nostalgia ele avisa que “Toda saudade é uma espécie de velhice”. Concordo e percebo que apesar de o tempo estar passando cada vez mais rápido, todas aquelas coisas que foram importantes um dia para mim vão me acompanhar ao longo de toda a minha vida. Mesmo que em pequenos flashes, essas cenas nunca vão se apagar.

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