25 de Outubro de 2016

“Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”

E aí eu decido aproveitar o domingão para tirar da minha estante algum livro que eu tenho há muito tempo, mas que ainda não tenha começado a ler. Olhei, olhei, olhei e depois de muito pensar – mais engraçadinho, mais teen, uma surpresa total? – resolvi optar pelo Coisas Que Ninguém Sabe, do Alessandro D’avenia. Já tinha lido um livro dele anos atrás, o Branca como leite, vermelho como sangue e sabia que encontraria muita, muita poesia.

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Ainda estou no primeiro capítulo, mas já estou completamente apaixonada. Não sei se é um dom italiano ou apenas um dom do Alessandro D’avenia mesmo, mas os textos dele parecem te abraçar. Ele é doce em tudo o que escreve. Nada é raso, bobinho ou mansinho demais. Cada parágrafo te pega pelo pé e te faz ler devagar e cada vez mais devagar. Não, não é chato. Mas é como se você quisesse absorver cada palavrinha, como se não quisesse deixar escapar nada do que está escrito ali.

E quando estava quase terminando o primeiro capítulo, encontro a frase “Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”. Voltei e li de novo. Suspirei. Ah, Alessandro! Como você é fofo, meu querido! Mesmo sem contexto essa frase já é especial, mas quando ela está associada a um professor que se recusa a ler apenas trechos da Odisseia de Homero para os seus alunos, um professor que prefere fugir do programa escolar para ler tudo ao longo de todo o ano com seus alunos, transforma a frase em algo ainda maior.

Fiquei pensando sobre isso. O mundo seria tão, tão melhor se as pessoas se entregassem por inteiro para aquilo que elas realmente gostariam de fazer. Seria tão lindo se todos os professores realmente amassem de coração suas profissões – e não só eles, mas também médicos, jornalistas, arquitetos, engenheiros e todas as outras -, pois dessa maneira todos passariam a realmente se doar para o mundo ao invés de viver esperando coisas em troca.

Um professor que pensa no seu aluno, que ama tanto uma obra literária, que conhece a importância daquele texto, ter a preocupação de esquecer todo o resto para trabalhar inteiramente o livro na sala de aula é de uma beleza sem fim. Fico pensando aqui no Brasil, nos clássicos. Se os livros deixassem de ser uma “tarefa” de levar para casa, ler e fazer prova e realmente virassem um objeto de estudo, discussão, seria muito melhor. Meu pai outro dia contou para a gente que a professora dele lia livros inteiros na sala de aula. Não lembro de nenhum professor que tenha feito esse tipo de coisa por aqui na minha época de escola. E olha que eu estudei em várias escolas diferentes!

Ler trechos, saber que nem metade dos alunos vão ter o trabalho de ler o livro recomendado e que a maioria vai buscar resumos e resenhas na internet, é de um deixar para lá gigantesco do professor e da escola. Como diz a frase de Alessandro D’avenia que abre esse post  “Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”. Histórias que poderiam acrescentar, construir, iluminar a vida dos alunos passam sem nem mesmo deixar marca nenhuma.

Ele continua “Queria que seus alunos penetrassem no mundo em que ele mesmo entrava todas as vezes em que lia a Odisseia; que sentissem o perfume áspero do mar, o odor acre do sangue, as lágrimas de uma mãe, o suor de um pai que volta para casa. Queria conduzi-los aonde só a literatura sabe nos levar: ao coração das coisas do mundo, quando foram fundadas e seu código se perdeu. E a arte é o código que torna visíveis as coisas que tocamos todos os dias, e que, justamente porque as tocamos demais, tornam-se opacas, corriqueiras, invisíveis. Queria transmitir tudo isso a jovens de 14 anos, ainda crianças no rosto e no coração, mas que, dali a cinco anos, se tornariam adultos: homens e mulheres. Tal como seu professor fizera, também queria lhes dar uma chance a mais de conseguirem ser eles mesmos”.

Se tudo fosse feito por amor, com paixão, as pessoas se entregariam mais, se doariam mais e o mundo seria um lugar melhor. Uma pena que a maioria das pessoas espera muito mais o que vai ganhar em troca do que o que realmente tem para dar e para mudar na vida de outro alguém.

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