09 de Novembro de 2015

O Pintinho que quase foi um cachorro

Acho engraçado quando volto ao passado navegando pelas minhas memórias. Algumas lembranças são tão, tão vívidas que chega a ser difícil acreditar que tanto tempo passou. Quem nasceu lá pela década de 80, deve lembrar também das famosas feiras de filhotes que costumavam acontecer dentro dos shoppings. Bom, pelo menos em Niterói – cidade do Rio de Janeiro – acontecia com frequência. E lá pelos meus sete, oito anos, fui a mais uma daquelas feiras que estimulavam o meu sonho – proibido com veemência pelo meu pai e hoje, pelo meu marido – de ter um cachorro.

filhotes cahorro

Não sei como é possível, mas lembro exatamente de tudo. Não esqueço a propaganda colorida que anunciava que no estacionamento nos esperavam filhotinhos de todas as raças de cachorro. Como os pais poderiam aguentar seus pirralhinhos gritando e suplicando por uma visitinha aos bichinhos? Como?

Naquele dia tão especial, a mãe do meu amigo não resistiu e acabou cedendo a nossa súplica. Uhuuuuu!! Claro que depois de mais de vinte anos, não lembro exatamente se precisamos ficar quietinhos até a hora da feira ou se ela nos levou por livre e espontânea vontade. Só sei que lá fomos nós. Se a memória é falha em alguns detalhes, em outros ela é bem esperta. Lembro de todas as sensações que senti quando a porta abriu, do ar condicionado bem gelado, do tapete verde e dos cachorrinhos mais lindos do mundo que ficavam olhando quem passava.

Que judiação com as crianças e com os filhotes eram aquelas feiras. Os pimpolhos, como eu e meu amigo, sentiam um desejo enorme de possuir cada um daqueles cachorros que eram entregues em nossas mãos para que fizéssemos carinho. E os filhotes? Nem preciso comentar o motivo da judiação, não é mesmo? Imagina passar de mão em mão horas e horas por dia!

feira de filhotes

A caminhada entre uma gaiola e outra era cheia de “ohmmmm”, “Ah, eu querooooo!” e “Me dá um, mãnhêeeeeee?!” e repleta de arrependimento dos adultos que, com toda certeza não paravam de pensar “O que eu vim fazer aqui?!”. Mas para deixar as crianças menos sofridas depois de tanta fofura, a feira presenteava todos os mini-visitantes e os pais comemoravam o “brinde” que faria com que os filhos se esquecessem da vontade enorme de ter um cachorro – pelo menos por um tempinho.

Quem viveu a época das feiras dos filhotes, lembra do tão amado brinde. Quem não viveu, deve estar se perguntando qual era a mágica para calar as crianças depois de tanto cachorro perfeito, não é? Bom, quando a gente passava triste pela porta de saída, prontos para conquistar o primeiro trauma da vida, éramos presenteados com nossos primeiros bichinhos de estimação: um peixinho dentro de um saco com água ou um pintinho em uma caixinha.

Naquele momento, todos os cachorros fofos eram esquecidos e passávamos a vibrar com aquele primeiro filhinho que era entregue aos nossos cuidados. Pobres peixinhos! Não me lembro de ninguém saindo da feira com eles. Todas as crianças queriam o pintinho amarelinho para ser seu cachorro. Cachorro? Claro! Depois de segurar mais de vinte filhotinhos, que graça teria um peixinho intocável? Era muito mais incrível um bichinho que andava, bicava, interagia e era fofinho. Era quase como um cachorro disfarçado de pinto. Um trauma que deixava de existir. Um ótimo prêmio de consolação.

A mãe do meu amigo provavelmente suspirou aliviada. No lugar de rostos tristes, saímos pelo estacionamento dando nomes aos nossos cachorros que piavam, trocando informações sobre os cuidados que teríamos, como iríamos alimentar nossos “filhotes” e em que lugar da casa iríamos colocá-los para dormir.

pintinho

Cheios de planos, chegamos ao nosso prédio. Ele parou primeiro, já que morava no décimo nono andar. Eu subiria mais um lance até chegar ao meu corredor no andar de cima. Sozinha no elevador durante aqueles poucos segundos, olhei para o meu “filho” enternecida. Tão pequeno e dependente dos meus cuidados. Quando a porta abriu, saí serelepe em direção a minha casa.

Não esqueço até hoje o que aconteceu quando a minha mãe abriu a porta. Do lado menor – o meu – um sorriso de quem acabava de ser mãe. Do lado maior – da minha mãe – o choque de quem não queria ser avó de um bicho que voava.

– Dê meia-volta nesse instante e entregue esse bicho para o seu amigo!

Chocada e magoada com aquela recepção ao meu primeiro filho, não consegui fazer nada a não ser chorar. O cachorro-pintinho, tão indefeso dentro daquela caixinha não tinha ideia do que acontecia do lado de fora. E sem nem mesmo me deixar entrar em casa, minha mãe foi comigo até a casa do meu amigo e me fez dar o meu primeiro bichinho de estimação para ele. Ele não podia acreditar na sua sorte! Ganhou dois novos amigos e eu voltei para casa com as mãos abanando.

Sem cachorro e sem pintinho. O primeiro trauma da minha infância.