08 de Outubro de 2015

O Meu Primeiro Beijo

Conversar com adolescentes é sempre uma maneira de voltar ao passado. O mundo pode mudar, a tecnologia pode ficar cada vez mais avançada, mas algumas coisas não mudam nunca. O coração sempre vai bater do mesmo jeito ao encontrar um sorriso de tirar o fôlego, as mãos sempre vão tremer quando acontecer um esbarrão com aquele amor platônico e as sensações dos amores e desamores vão se repetir por milênios, não importa quão avançado seja o mais novo celular do momento. E o primeiro beijo? Ah, toda a expectativa para o que vai acontecer e as lembranças quando ele já tiver ficado no passado, também não são diferentes entre as mais diversas gerações. Quer apostar?

beijo

Dezembro de 1995 – Fernanda com 12 anos.

– Tenho certeza que você está mentindo – acusou um amigo do prédio. – Aposto que nunca beijou ninguém. Essa história que você contou não aconteceu.

– Não viaja! – reclamei. – É claro que já beijei.

– Então, porque está fugindo do Guga?

– Não estou fugindo de ninguém, só não quero ficar com ele – fiz careta para o meu amigo.

– Igual não quis ficar com o Guilherme – acusou.

– Pois é! Também não queria, ué! Qual é o problema?

– Ele gostava de você, ia entender se você não soubesse beijar – implicou.

– Para de falar besteira, garoto.

– Fernanda, você vivia falando que achava o Guga bonito, fez até corações na sua agenda ao lado do nome dele. O garoto já disse que quer ficar com você. Se não está com medo, o que te impede de ficar com ele?

Enquanto aquela conversa acontecia, meu coração estava aos pulos, minha boca completamente seca e meu medo de ser descoberta era gigante. Aquela era a época que todo mundo no play estava vivendo as primeiras descobertas, o tão esperado primeiro beijo. Eu ainda não tinha beijado ninguém, mas para não ficar para trás, decidi contar uma mentirinha básica e disse que aquele momento tão esperado havia acontecido na escola, com um menino que eu gostava.

– Não posso não querer ficar com o Guga?

– Claro que pode, só queria entender o motivo, até para saber o que explicar quando ele me perguntar se vai rolar ou não.

O tal do Guga não morava no nosso prédio, mas estava passando férias na casa do primo. Ele também tinha 12 anos.

– Pode falar o que você quiser, não tenho que dar nenhuma explicação. Já dei a minha resposta.

Senti o coração murchar ao afirmar aquilo tão cheia de mim, com uma certeza que era só da boca para fora, bem diferente da vontade que eu realmente sentia. Voltei para casa com quase raiva de mim. Uma mentira e o medo de ser descoberta acabaram com a minha chance de experimentar o meu primeiro beijo.

Quando voltei para o play mais tarde, imaginei que tudo estaria arruinado e que o Guga não ia nem mesmo querer olhar na minha cara, mas não foi o que aconteceu.

– Oi – me cumprimentou assim que me viu chegar.

Senti minhas bochechas esquentarem e o coração virar uma bateria de escola de samba. Respondi com um sorriso sem jeito.

– Podemos conversar? – chamou estendendo a mão na minha direção.

Travei. Não sabia o que fazer. Percebi que todos os meus amigos estavam acompanhando a conversa e esperando para ver qual seria a minha reação. Não respondi nada, apenas segui o Guga quando ele levantou e foi andando para a parte de trás do play. Lá ficava o parquinho das crianças menores e não tinha ninguém brincando naquele momento.

– Guga, já falei para o Leo tudo o que tinha para dizer. Ele deve ter te contado alguma mentira…

– Ele não me falou mentira nenhuma – me interrompeu.

– Como pode ter tanta certeza? -perguntei imaginando que meu amigo tinha dito exatamente o contrário do que havia pedido.

– Por que ele mentiria para mim dizendo que você não quer ficar comigo?

Opa! Meu amigo não tinha mentido. Então, por que ele queria conversar?

– Mas te chamei para conversar porque queria ouvir isso de você. Por que não quer ficar comigo? – deu um sorriso tímido.

Ele era branquinho, cabelo liso, acho que tinha sardas, magro e alto.

– Acho que não tem nada a ver – respondi quase sem voz.

– O quê? – chegou pertinho de mim.

– Nós dois, sei lá! – uma mistura de sensações se apoderavam de mim naquele instante. Medo de que descobrissem que aquele seria mesmo o meu primeiro beijo, pavor de imaginar que minha mãe poderia aparecer a qualquer instante e desespero de não ter a menor ideia do que fazer se o beijo realmente acontecesse.

– Tem certeza? – sorriu. – Ou você está com medo de não saber o que é para fazer?

– É claro que eu sei – estava na cara que era uma mentira.

– É só fechar os olhos e deixar acontecer.

Aquela foi a última frase antes do grande acontecimento. Meu primeiro beijo durou aproximadamente quinze segundos, foi apenas o tempo para descobrir o que acontecia quando duas bocas se juntavam. Era estranho, mas ao mesmo tempo era bom. Quando nos afastamos ele segurou a minha mão e pediu que eu continuasse ali, mas eu já estava andando e assim continuei.

Gritos e mais gritos ecoaram por todo o play. Meus amigos estavam escondidos e quando tiveram certeza que não iria rolar mais nada, começaram a comemorar, empolgados com o que tinha acabado de acontecer. Eu não era mais uma menina que não sabia beijar.

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Se você ainda não viveu essa experiência, não precisa ficar com medo, nem preocupada com o que vai fazer. Lembro que as revistas ensinavam diversas técnicas para treinar, mas nada disso é necessário. Você só precisa lembrar da última frase que eu ouvi antes do meu primeiro beijo “é só fechar os olhos e deixar acontecer”. Mas se quiser um conselho, aí vai: Não beije alguém só porque todo mundo já beijou. Escolha uma pessoa que faça você colocar coraçõezinhos na agenda. O beijo, todos eles, devem sempre ser especiais.

Muita gente beija por beijar, fica com um monte de pessoas só para “aumentar a lista”, mas isso é muito vazio. É muito mais legal quando você tiver seus trinta, cinquenta anos e puder lembrar da maioria dos beijos que deu na vida, lembrar de datas e pessoas que foram especiais. Por isso, guarde o primeiro beijo para alguém que te faça suspirar. Mesmo que dure poucos segundos, é um momento que você nunca mais vai esquecer.

Aposto que você também tem uma recordação engraçada, especial ou trágica do seu primeiro beijo. Não deixe de me contar nos comentários como foi o seu, amo histórias e vou adorar conhecer a sua! <3

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