30 de Novembro de 2017

Relato do meu Parto Normal – O Trabalho de Parto

Assim que voltamos para casa, entrei em um novo estágio do trabalho de parto. As contrações começaram a ficar muito doloridas e foi como se eu estivesse entrando em uma transformação total. Uma espécie de divisor de águas – quem eu fui até aquele momento e quem eu passaria a ser a partir dali. Naquele momento não havia espaço para nada além de mim e da Julia. Preocupações, medos, pudores, o que quer que fosse estava me dando adeus.

Entrei correndo no chuveiro, liguei a água bem quente e coloquei uma cadeira bem embaixo da ducha. A dor aliviava um pouco e eu tentava relaxar. Na minha cabeça só vinha o sorriso da minha médica e a voz dela falando “você já está com quase 4 centímetros”. E então, mesmo com a contração vindo e dando a sensação de esmagar as minhas costas, minhas pernas e a minha barriga, eu sorria.

Foi só sair do banheiro para que eu perdesse totalmente a noção de tempo, espaço e de tudo mais. É incrível como a natureza e o nosso instinto agem nesses momentos. Nenhum livro, blog, relato ou coisa do tipo é capaz de descrever exatamente o que acontece no momento do trabalho de parto. Por mais textos que eu tivesse lido, nenhum me deixou “preparada” para aquilo que vivi.

O parto normal, o trabalho de parto, não é algo que a gente possa se preparar – pelo menos no meu caso, na minha experiência foi assim. Segui totalmente o meu instinto, a minha natureza, o que o meu corpo me mandava fazer.

Saí do banheiro e as contrações começaram a vir uma seguida da outra. Parecia não dar nem tempo de respirar ao final de uma que outra logo começava. Falando assim, parece que é a pior dor do mundo, mas não é isso. Dói. Claro que dói. Mas é uma dor diferente. Não é aquela dor ruim de uma doença. Como falei ontem, é dor de vida, dor de transformação. Acredito que deva ser algo  como uma lagarta virando borboleta. Toda grande transformação dói. É necessária para que nosso corpo e nosso ser estejam preparados para toda uma vida nova.

Então, seguindo meus instintos, não pensei no que faria, em como me comportaria, no que faria quando doesse mais. Estava ali, vivendo aquela metamorfose com toda a minha alma. O enfermeiro já tinha chegado e foi transformando a minha casa em uma espécie de ninho. Não prestei atenção em nada que estava acontecendo ao meu redor. Agarrei um almofadão que deixei no sofá e pedi que Vinicius apertasse as laterais das minhas pernas, pois tinha percebido que quando a contração vinha, aquela pressão aliviava a dor. O enfermeiro – que foi um anjo para a gente – me ajudou com massagens, aromas que acalmavam e também com essas pressões em pontos específicos que aliviavam muito as  contrações.

Poucos minutos depois as contrações mudaram e passaram a ser de um jeito que eu não estava esperando. Não dá para descrever muito bem a sensação, mas não era exatamente de dor. O que eu sentia era o meu corpo funcionar alucinadamente. Não dava tempo de pensar. A contração vinha e eu sentia uma vontade absurda de empurrar. Não sabia bem o que empurrar nem como fazer aquilo, mas o corpo parecia saber. E foi a partir dali que um grito que nunca imaginei que fosse dar, passou a se formar dentro de mim e sair da maneira mais primitiva da minha boca. Não dava para não gritar, assim como não dava para não empurrar. Era o meu corpo que mandava em mim. Era a minha transformação de lagarta a borboleta.

Vinicius foi muito, muito importante naquele instante. Fomos mais uma vez para o chuveiro, dessa vez com uma bola de pilates.  Ficamos no escuro, com as músicas que escolhemos para o parto tocando bem baixinho e com a água quente caindo direto nas minhas costas. Vinicius me deu as mãos e eu continuei seguindo o que o meu corpo mandava.

Não é romântico, não é nada que deva ser idealizado. É realmente uma transformação, algo visceral. Apesar das músicas, do marido ao lado, da expectativa do que vai acontecer… É suor, gritos, sangue, choro… Muito mais fisiológico do que bonito. O parto normal não é bonito por ser belo, mas por ser transformador.

Depois de sair do chuveiro, pedi para que o enfermeiro visse com quanto eu estava de dilatação. Apesar de não ter passado muito tempo, senti que o momento estava se aproximando. Ele me examinou e disse baixinho: Vamos para o hospital agora, pois você está com oito centímetros e falta muito pouco.

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Continua…

 

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