22 de Setembro de 2016

Selton Mello e o meu trauma de salto alto

salto alto

Quando os títulos são um pouco estranhos, pode sentar porque lá vem história! E a de hoje tem a ver com o ator Selton Mello e o meu trauma de salto alto. Vem comigo que você vai entender o motivo.

Um dia, quando eu estava com uns dez anos, falei para a minha mãe que queria ser modelo – quem nunca?. Ela não deu muita bola para aquele meu “sonho” do momento, mas eu insisti. Lembro que a gente costumava frequentar um salão de beleza que era uma casa enorme e lá eu vi que aquele meu desejo poderia virar realidade. Um cartaz avisava que nos próximos dias começaria um curso de modelo e manequim.

– Deixa, mãe!!! Por favooooooooooooorrrrrr!!! – abri o bocão e falei com a minha voz que desde sempre é bem alta.

– Depois vemos isso, Fernanda – deu aquele olhar ameaçador que as mães costumam dar aos filhos, mas que nem sempre funciona.

Fiquei resmungando e a mulher do salão que não era boba nem nada, começou a dar o maior incentivo. Lembro até hoje da empolgação que senti quando ela disse que os professores eram “pessoas do meio”, que costumavam dar esses cursos para “revelar talentos”. Assim como na minha história com a Xuxa,  a minha cabeça já começou a viajar e passei a criar um milhão de cenários para o meu futuro de modelo.

– Sua filha é tão linda, não deixa ela perder essa chance – insistiu a moça, que era muito esperta e boa vendedora, porque naquela época, meu Deus do céu, de bonita eu não tinha nada!! Estava entrando naquela fase que a garotada dá uma espichada. Então, eu só tinha cabeça, cabelo e aparelho nos dentes.

Mas como o amor é cego, minha mãe acabou tão iludida quanto eu. E saímos de lá com a minha matrícula efetuada. Passei a sonhar com aquele curso e não via a hora de chegar o grande dia. Já na primeira aula, descobri que era a mais nova da turma. Todas as outras meninas tinham por volta de 14, 15 anos. Mas isso só me deixou mais confiante. O professor da aula de passarela avisou que precisaríamos comprar um salto bem alto – não lembro o número, mas lembro exatamente como era o modelo que fiz a minha mãe comprar para mim – o primeiro salto alto a gente nunca esquece!

Aquele sapato passou a ser a minha segunda pele. Minha mãe queria que eu usasse apenas no curso, mas eu insistia em andar dentro de casa com ele para treinar e quando tinha a possibilidade, teimava em usar para ir para a rua. Lamentava que a escola obrigava a usar um tênis preto horroroso. Queria meu salto alto. Queria mostrar para o mundo que no auge dos meus dez anos, eu já era uma garota ligada na moda, uma menina descolada que sabia andar em cima de um salto gigante.

Mas Fernanda, por que você está contando tudo isso? Em que lugar entra o Selton Mello nessa história? Ele era o professor?

Não, mas vou contar a parte dele agora. Antes, queria que vocês entendessem o quanto aquele salto alto estava sendo importante para mim. A construção de uma Fernanda que queria ser modelo, que amava moda, adorava sair para comprar roupas e que com a nova altura obtida com aquele sapato que já devia ter chulé de tanto que usava, tinha passado a se sentir uma mini-adulta.

Foi como um efeito cascada. Uma coisa levou a outra. Depois do salto e durante as aulas, passei a querer usar umas roupas da moda, como aquelas que as meninas do curso também usavam e acabei convencendo a minha mãe – sou filha única, o convencimento fez parte do meu mundo!! Risos –  a me dar uma blusa boca de sino, que era o auge da it girl daquele momento.

 Apesar de querer ser mais velha, de me sentir uma adultinha com o meu salto alto e os meus dez anos, ainda era criança e gostava de fazer coisas de criança. E foi assim que pedi para a minha mãe me levar ao teatro Abel para assistir A Dama e o Vagabundo. No elenco estavam Selton Mello (finalmente!!!!) e Adriana Esteves.

Sempre fui apaixonada por todo esse mundo artístico. Adorava e era fã de um monte de gente. Foi assim que insisti para que a gente chegasse bem cedo no teatro. Queria ser uma das primeiras a chegar para garantir o meu ingresso. E lá, no início da fila, esperando a bilheteria abrir, estava a Fernanda de dez anos, com uma calça jeans, a blusa boca de sino e o tão amado salto alto.

De repente, descem do carro Selton Mello e Adriana Esteves. A porta para entrar no teatro ainda estava fechada. Eles pararam do nosso lado e eu não podia acreditar na minha sorte. Fui toda cheia de mim, com aquela segurança enorme de que estava arrasando, pedir um autógrafo para o Selton Mello e para a Adriana Esteves. Simpáticos, eles sorriram e assinaram a filipeta da peça, que era a única coisa que eu tinha nas minhas mãos para garantir o autógrafo deles.

E foi então que, por um motivo totalmente desconhecido até hoje, Selton Mello perguntou:

– Quantos anos você tem?

“Meu Deus!!! Ele está conversando comigooooooo!! Ele quer saber quantos anos eu tenho!! Obrigada, salto alto! Sem você eu não seria ninguém” – pensei enquanto abria um sorriso enorme.

– Dez – respondi confiante.

E no fantástico mundo de Fernanda Belém eu pensava:

“Agora ele deve estar impressionado!! Será que está na cara que sou modelo? Será que ele vai perguntar se eu trabalho como atriz ou algo do tipo?”

– Você não acha que é muito novinha para usar um salto desse tamanho, não?

Meu mundo caiu. Sorri sem graça e minha mãe abriu um sorriso triunfante. Finalmente ela se veria livre daquela minha segunda pele que ela detestava. Ainda tentei explicar, que fazia curso de modelo e manequim, mas ele garantiu que para sair na rua, um tênis ou uma sandalinha ficaria muito mais confortável e bonito em mim.

O recado foi dado, captado e praticado. Esqueci aquela ideia de ser modelo, continuei apaixonada pelos palcos, estudei teatro por muitos outros anos, mas nunca mais me interessei por moda e nem mesmo depois de velha gostei de usar salto alto novamente.

*Essa lembrança surgiu quando estava na análise, comentando sobre como gosto de ver as roupas diferentes e bonitinhas que as blogueiras usam e como não tenho coragem de usar nada “diferente”. Ela perguntou como eu lidava com as roupas quando era novinha e aí eu lembrei. Selton Mello me traumatizou! Risos!!

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