13 de Janeiro de 2016

Sobre ser um “escritor fantasma”

Você aceitaria ser um escritor fantasma (Ghost Writer)? Ontem eu estava esperando Vinicius na Saraiva e acabei dando de cara com um livro chamado “As palavras não se afogam ao atravessarem o Atlântico”. Bom, é claro que quando eu li na sinopse que eram entrevistas com grandes autores portugueses, incluindo o meu amado Saramago, não pensei duas vezes e fui praticamente flutuando até o caixa.

Comecei a ler no mesmo instante – sou dessas! – e a primeira entrevista é com a escritora Augustina Bessa-Luís. Amo esse tipo de literatura, pois é uma maneira de conhecer a cabeça de diversos autores, entender como eles pensam sobre os mais variados assuntos. Em uma das perguntas, o entrevistador quis saber mais sobre como Augustina via o papel do “escritor fantasma”, já que a protagonista do romance que ela havia escrito trabalhava com essa função.

escritor fantasma

“Acho que é a mais cômoda das situações. E ela sabe disso. Ganha o dinheiro, não tem o peso da crítica em cima dela, nem as obrigações. Pode parar quando quer e não tem que satisfazer uma aura nem uma celebridade, porque isso é com os outros.”

Fiquei pensando sobre tudo isso, nunca tinha visto o escritor fantasma dessa maneira. Antes, eu costumava pensar que essa profissão é a de uma pessoa que é “usada” para que outra ganhe todos os créditos. Sei lá, acho meio estranho isso. É quase como fabricar um personagem na vida real. É fingir que alguém fez um trabalho que na verdade foi feito por outra pessoa. É como se você se correspondesse com alguém na internet, se apaixonasse, mas na hora de conhecer pessoalmente, enviasse o amigo mais bonito para impressionar.

Mas como eu AMO pensar das mais diversas maneiras, abrir a minha cabeça para todos os tipos de opinião, pela primeira vez pensei no outro lado. Depois de conhecer o pensamento de Augustina, pude começar a pensar em um escritor fantasma como alguém que ama demais escrever, mas não liga para qualquer espécie de reconhecimento, nem precisa de crédito algum para massagear o ego. É pago para trabalhar com o que ama, recebe por isso e segue sua vida sem os demais bônus e ônus da profissão.

Confesso que nem ter nem ser um escritor fantasma funcionariam para mim. Jamais assinaria algo que não fosse totalmente da minha autoria e também acho que morreria de ciúmes se outra pessoa recebesse as lindas mensagens que recebo dos meus leitores. Descobrir que o que você escreveu emocionou alguém que você nunca viu na vida, que a sua história mexeu profundamente com alguém, que os seus personagens viraram amigos dos seus leitores, é uma das coisas mais deliciosas da profissão de escritor.

E vocês? O que acham da profissão de escritor fantasma?

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