25 de Abril de 2016

Somos a geração dos fanáticos e exagerados?

Observo todo mundo e fico pensando – que coisa estranha! Atualmente, tudo é exagerado, supera o bom senso, a normalidade. Muitas vezes me sinto até um pouco perdida, fora do ninho. Será que é por ainda não ter encontrado de verdade o “meu grupo”? Não sei. Na verdade, acho que já encontrei várias vezes ideias e gostos muito parecidos com o meu, mas quando o exagero começa, saio correndo. Talvez seja uma espécie de trauma.

Lembro que quando tinha mais ou menos oito anos, meus pais acabaram caindo na bobeira de entrar em um daqueles “Marketing Multinível” (se você não sabe o que é isso, achei uma explicação legal aqui), que hoje entendemos que nada mais é do que uma pirâmide. Sendo filha única e não tendo babá, lembro que os meus pais me levavam toda semana para a “reunião”. Apesar de ficar em uma parte do salão reservada para crianças, sempre sentava na escada e ficava observando o que era dito no palco.

pensar fora da caixa

Antes de continuar meu relato, preciso explicar que estou fazendo aqui o mesmo que faço com minha psicóloga. Não estou pesquisando nada para falar exatamente o que acontecia. Estou apenas buscando na minha lembrança a ideia da Fernanda de 8 anos sobre o que estava acontecendo ao seu redor. E nas minhas recordações, lembro que além das reuniões semanais, outros dois encontros aconteciam. Um era mais frequente e promovido pelos meus pais, para apresentar aquela “oportunidade incrível”, que nenhum amigo poderia ficar de fora. De tanto que assisti, lembro que até eu pedia para explicar algumas partes, coisa que todo mundo achava uma graça. O outro evento era mais esporádico e lembro de ter participado de apenas dois. Tratava-se de um encontro de todos aqueles que estavam no marketing Multinível e eram palestras incentivadoras e empolgantes para que todos soubessem como logo, logo, poderiam virar diamantes e conquistar muito dinheiro. Algumas cenas eu nunca esqueci. Lembro que esse evento aconteceu no Riocentro e algumas pessoas levavam cartazes com os dizeres “Caiu na rede, é peixe”. E quando um dos palestrantes dizia exatamente aquilo no palco, o público ia ao delírio.

Depois de algum tempo, meus pais despertaram e viram a furada que era aquilo. Mas quando você está lá dentro, parece ter encontrado as pessoas que parecem com você, que batalham igual, tem os mesmos desejos, a mesma garra e vontade de vencer na vida. Estão fazendo o que gostam e ganhando muito dinheiro com isso.

Dentro de mim, sempre cresci com o sonho de trabalhar com o que amo. Mas nunca gostei muito da ideia de ter que pertencer a um grupo para isso. Como disse lá no início do texto, talvez isso seja um trauma.

O que anda me assustando é que para todo lado que olho, vejo esse fanatismo e exagero. É como se quase tudo tivesse virado aquele marketing multinível.

Penso que isso sempre existiu na religião e no futebol. No caso da fé, as pessoas vão até o lugar que acreditam – centro espírita, templo, igreja, etc… – tomam como verdade aquilo que está sendo dito pelo líder religioso, compartilham das mesmas crenças com quem frequenta o mesmo lugar e alguns tentam convencer os outros de que aquela é a maior verdade do mundo. E no futebol, as pessoas idolatram seus times, não aceitam que ninguém diga que outro é melhor e compartilham os mesmos pensamentos com os torcedores dos seus times.

O problema que vejo hoje é que tudo parece que virou religião e futebol. E isso está me dando um nervoso gigantesco.

Ando acompanhando alguns dos novos empreendedores e isso também está me deixando assustada. Quase todos eles parecem aqueles caras que eram diamantes na época do marketing multinível. Eles falam com todo o amor do mundo sobre como empreender é o máximo e que todo mundo pode fazer. Os cursos dessas pessoas ficam lotados e eles gritam “Você pode, você consegue” e falam como chegaram lá como se fosse apenas questão de tempo. O público parece hipnotizado e grita de volta palavras de incentivo e fé. É quase um “Vai Flamengo” ou “Amém”.

Medo.

E aí eu penso na política e na nossa atual situação e o medo vira pavor. De um lado está a oposição fervorosa, do outro os que defendem. E ninguém pensa mais antes de falar ou agir. Os que possuem as mesmas opiniões se juntam para defender com unhas e dentes as suas crenças, literalmente. As pessoas estão perdendo amizades, brigando na rua, cuspindo um na cara do outro.

Sei lá, sabe. Acho que tudo que é exagerado, todas as coisas que viram uma espécie de fanatismo, não pode ser bom. A sensação que eu tenho é que todos estão tão carentes que precisam de um líder e do sentimento de pertencer completamente a algum lugar. Espertos são aqueles que percebem isso e se transformam no líder que tantos vão querer seguir. O empreender é apenas uma história e o dinheiro que enriquece vem daqueles que querem ouvir de perto o líder falar.

Não é estranho?

Sempre que me vejo remando muito com todo mundo, acabo pegando o meu remo para dar uma viradinha para outro lugar. Quando estou cercada de pessoas que concordam demais comigo, tenho a tendência de parar e olhar fora da caixa para ver e ouvir o que está rolando com quem vai por outros caminhos. Sempre achei que nenhuma verdade é absoluta e espero viver com a curiosidade de conhecer todos os lados das histórias, sem precisar escolher um líder e um grupo para fazer parte. Meu grupo é o “Eu, sozinha”.

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