11 de Novembro de 2015

Somos o futuro que o passado esperava?

Será que há cinquenta anos ou mais, as pessoas imaginavam como seria o futuro? Não estou falando daquelas ideias mais complexas como carros voadores, comidas em cápsulas que virariam lindas refeições depois de entrar em um forno mágico. Meu questionamento é sobre as pessoas. Será que em um passado não tão distante assim alguém conseguiria imaginar a nossa “evolução”? Fico pensando – coisa de escritora com uma imaginação infinita – no que aconteceria se um adolescente dos anos 40, 50 tivesse sido congelado e voltasse agora para o mundo que a gente vive.

relógio do tempo

Em um “curto” espaço de tempo – vamos combinar que 50 anos não é tanta coisa assim, né? – acredito que as pessoas mudaram demais. Imaginem esse adolescente dos anos 50, despertando em 2015. O que será que ele iria pensar ao caminhar na rua e observar diversas pessoas parando do nada e sozinhas, com a mão esticada, segurando um aparelho estranho, um sorriso no rosto e um clique? Caminhando mais um pouco, ele observaria grupos de amigos que parecem estar mais interessados em algo que acontece naquele aparelho que seguram nas mãos ao invés de aproveitarem o momento que estão vivendo juntos. Mais cliques, sorrisos e celulares.

Ops! Nosso viajante do tempo acaba de esbarrar em mais uma pessoa que está com o celular na mão, mas dessa vez ela fala sozinha com ele. Caminha mostrando uma coisa aqui e outra ali e volta a ter uma conversa profunda com aquele aparelho. Curioso, o adolescente dos anos 50 estica o pescoço para tentar ver quem está do outro lado e para total espanto descobre que ali está uma espécie de espelho. “Ué, as pessoas do futuro conversam com elas mesmas e mais ninguém?”.

Surpreso com aquele comportamento estranho, ele decide observar como estão as crianças de hoje. Olha aqui, olha ali e… “por onde estão os meninos e as meninas desse mundo?”. Tenta achar campinhos de futebol, mas quase não encontra nem uma calçada livre. Árvores com frutas, ruas de terra, a molecada correndo de um lado para o outro em um pique qualquer? Nada. Ele não encontrou nada daquilo. “Opa! Finalmente! Ali está um grupinho de meninos. Mas por que estão tão quietos?”. Sentados em uma mesa de restaurante com os pais, os garotos de aproximadamente oito anos seguem quase calados, cada um com um daqueles aparelhos estranhos, mas com um tamanho maior. Totalmente entretidos, jogam alguma coisa. “Que esquisito! É como se eles não estivessem nem aqui. Quatro crianças juntas e nenhum barulho, nenhuma bagunça, nenhuma traquinagem”.

crianças conectadas

“Oiiiiiii, menino!! Desculpa, esqueci o seu nome, mas sei que somos amigos do Facebook, né?!” – cumprimenta uma garota sorridente e logo em seguida o abraça. “Pode aproveitar a festa! Estou muito feliz que você veio, obrigada mesmo pela presença”. – permaneceu com o sorriso no rosto e foi falar com a pessoa que estava atrás dele.

“Uau! As pessoas do futuro não sabem nem mesmo quem são seus amigos?”. – pensou o viajante.

Mas ali estava uma festa e ele resolveu aproveitar e observar. O adolescente do passado tentou entender o quase ritual de praticamente todos os “convidados” daquela comemoração. Eles se cumprimentavam, esticavam o braço, apontavam o aparelho em suas direções, sorriam com muita vontade e com um abraço que dava a impressão de que eram grandes amigos e depois daquilo se despediam, repetindo aquele mesmo comportamento com a pessoa seguinte. Alguns pegavam uma bebida, iam até a pista de dança, repetiam o processo do braço esticado e o melhor e maior sorriso do mundo e logo voltavam a sentar. “Que espécie de diversão era aquela?”.

E assim ele continuou. Descobrindo que hoje, os apartamentos são bem menores, mais arrumados, com menos enfeites, muito mais aparelhos eletrônicos e com menos alma. Em algumas casas, livros viraram apenas objetos de decoração. A maior parte das escolas não têm grêmio, nem aula de música. Os alunos são mais autoritários que os professores e os pais dão muito mais razão aos seus filhos.  As fotografias não são importantes para registrar para sempre grandes momentos, elas são uma espécie de prova de que as pessoas estão vivendo, quando na verdade tudo parece apenas uma encenação.

O viajante ficou triste ao perceber que no futuro as pessoas não sabem direito quem são seus amigos, não aproveitam as conversas, distraem as crianças com computadores e celulares ao invés de incentivar corridas, sonhos e aventuras. Achou estranho descobrir que algumas pessoas parecem ser melhores amigas de gente que nem conhecem pessoalmente, mas não sabem o nome do vizinho e nem dão bom dia quando encontram alguém do mesmo prédio. Achou interessante o avanço tecnológico, mas ficou preocupado com o que viu. “Será que em mais 50 anos o amor e as conversas serão algo em extinção?” – se questionou.

É claro que existe um exagero – ou não – na minha viagem de adolescente do passado. Mas acredito que em pouco tempo estaremos mais e mais parecidos com essa descrição. Muitas vezes queremos mostrar muito mais que somos o que não somos, que vivemos o que não estamos vivendo de fato. As crianças estão cada vez mais com joelhos intactos e com aparelhos eletrônicos ocupando grande parte da vida. A futilidade, competição, maldade, violência, realidade estão sendo inseridas cada vez mais cedo na vida das pessoas.

Não sou uma viajante do tempo tão do passado assim, mas ainda sou parte de uma geração que nasceu e cresceu desconectada, que tinha amigos reais, que descia para o play para brincar de polícia e ladrão, pique e até salada mista. Aprendíamos as coisas vivendo cada uma delas e como era deliciosa cada uma das experiências. Morríamos de amor e continuávamos vivendo. Escrevíamos em agendas, em bilhetinhos anônimos para nossas paixões platônicas e em cadernos de questionários. Colocávamos copinho de plástico nas rodas da bicicleta para ficar com barulho de moto. Tínhamos imaginação para dar e vender.

Não, não sou contra a tecnologia. Eu tenho um blog, canal no Youtube e os meus livros também são vendidos na versão eletrônica. Fiz muitoooooos amigos pela internet, amigos que viraram pessoas mais que especiais quando também se transformaram em reais. Mas sei lá! Em alguns momentos eu acho que sinto uma falta danada do tempo passando mais devagar e daquelas amizades que quando a luz faltava por muito tempo, não ficava desesperada por não ter o que fazer. Era só pegar um violão ou ficar de papo mesmo até o amanhecer.

Sou meio geração Y, meio geração pré-internet e uma saudosista de uma época que não vivi. Tenho um jeito de “pessoa do futuro”, mas também um olhar de adolescente do passado. Vivo em eterno conflito com o on e o off line. E acho que precisamos achar o equilíbrio entre a vida conectada e a desconectada. Esses dias eu li um texto de uma adolescente Geração Y dizendo que “sentimos inveja da fluidez dessa juventude, que não espera relações eternas, apenas boas relações”. Hum… Fico apenas preocupada que essa tal “fluidez” seja um sinônimo de “vazio e solidão”, de pessoas que se importam com o outro cada vez menos e de uma sociedade com mais e mais falta de amor.

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