15 de Setembro de 2016

Empreendedorismo de palco e o caso da Bel Pesce

Bel Pesce

Desde o início do ano passei a acompanhar bastante essa nova leva de empreendedores do Brasil. Muitos jovens, super conectados nas redes sociais, felizes e que dão diversos cursos, sempre com o objetivo de transformar os alunos em pessoas bem sucedidas. Uma dessas empreendedoras que passei a acompanhar foi a Bel Pesce.

Então, não quero julgar ninguém, muito menos criticar, nem mesmo a própria Bel Pesce, que muitos parecem ter descoberto agora e que passaram a “jogar pedra” na menina depois que saiu uma matéria em um blog dizendo que, talvez, ela fosse uma farsa. Bom, não quero entrar nem mesmo em polêmica, mas ando com vontade de refletir um pouco sobre tudo isso.

Algumas semanas antes disso tudo acontecer, fui tomar um café com uma amiga minha que virou uma mega empreendedora – de verdade!! Com um projeto bem bacana – e eu comentei o quanto estava feliz de ver que ela era uma menina novinha – tem 27 anos -, com muita garra e profissionalismo, conquistando cada vez mais um lugar de destaque nesse mundo. E aí eu falei:

– Daqui a pouco você vai ser maior que a Bel Pesce!

– Sinceramente, eu não acho que ela é isso tudo que falam. Se você parar e pensar, a empresa dela é uma empresa que vende cursos. Isso não é uma coisa tão genial assim para falarem tudo o que falam dela – disse a minha amiga com um sorriso.

E eu voltei para casa pensando exatamente sobre aquilo. Sabe, não só essa minha amiga, mas muitos outros empreendedores possuem projetos maravilhosos, desafiadores, que mereciam muito mais visibilidade e destaque na mídia e não é o que acontece. Por quê?

Foi então que na semana seguinte, veio toda aquela polêmica sobre a Bel Pesce. E mais uma vez eu parei para pensar no que estava acontecendo. Muita gente que nem mesmo conhecia a Bel, passou a atacar, a ter opiniões, a dizer o quanto a menina do vale não valia nada. Muita calma nessa hora, pessoal!

Sinceramente, eu acho a Bel uma menina esperta. Ela é uma garota que sabe aproveitar oportunidades para fazer dinheiro. E não, não acho que ela é errada de fazer isso. Sabe aquela história do “quem sabe faz, quem não sabe ensina”? Acho que é bem por aí.

A Bel é um livro de auto-ajuda ambulante. Ela é uma menina que ainda nem completou 30 anos – ou já? -, mas que estudou fora, conheceu muitas pessoas interessantíssimas, ouviu conselhos de profissionais maravilhosos, viajou para lugares que nunca nem mesmo pensei em ir, viveu experiências incríveis – que acompanhei no snapchat e sei que não foram invenções -, e que sim, tem conteúdo para passar para outras pessoas. Ela é uma garota inspiradora pelas ideias que tem e pelo que já viveu nesses poucos anos de vida profissional.

O fato de a Bel Pesce ter dado uma valorizada no currículo, como afirmaram que ela fez, não desmerece o que ela realmente tem de bom para falar. Quem nunca colocou no currículo que tem inglês fluente, quando na verdade fala igual ao Joel Santana? Acho que muita gente está pegando pesado demais nas críticas, sabe? Se a Bel conseguiu sair em todos os jornais, se foi mega valorizada pela mídia, é um mérito dela por saber se vender muito bem. Da mesma maneira que o blogueiro fez uma pesquisa sobre o currículo da Bel, qualquer outro jornalista poderia ter feito o mesmo. Se não fizeram, foi propaganda de graça para ela.

Ou vocês acham mesmo que todos os produtos anunciados nas propagandas são tão maravilhosos quanto dizem ser?

A Bel se transformou em um produto. E não é só ela. Como disse no início do meu texto, passei a acompanhar alguns desses novos empreendedores do Brasil e vejo que se vender muito bem virou uma nova profissão. Pelo que ando observando, existem dois tipos de empreendedores por aqui – e, provavelmente em todo lugar -: Aqueles que realmente amam alguma coisa e investem naquilo, trabalham dia e noite para transformar um sonho em realidade. E aqueles que por algum motivo – estudo, experiência, conhecimento – possuem algo a dar para os outros e passam a ser seus próprios produtos.

Nas minhas observações, vejo profissionais vendendo dicas de como bombar no Facebook, quando não passam de cem mil curtidas em suas páginas – o que já é um número grande, mas acho que não o suficiente para se dizer “o cara” nessa área. Mas e daí? Basta uma pequena pesquisa para decidir se vale ou não investir naquele curso. Se, de repente, eu achar que fulana de tal é perfeita para me ensinar como bombar a minha página, mesmo que ela não tenha tantas curtidas na página dela, é uma escolha minha. Ela não está com uma arma na minha cabeça me obrigando a fazer o curso.

“Ah, mas é enganação!”

Galera, tudo é marketing e acontece o tempo todo nos comerciais da TV. A gente observa e avalia o que realmente queremos de todos aqueles produtos “maravilhosos” que são mostrados diariamente. Podemos decidir entre comprar ou não comprar, assim como podemos decidir se vamos fazer ou não os cursos oferecidos por esses empreendedores de palco.

Mas o que eu quero dizer com empreendedores de palco? Como disse antes, existem aqueles que realmente construíram alguma coisa e aqueles que são o próprio produto.

“Isso está errado!! Como alguém pode ensinar algo que nunca fez?”

Bom, tive aula de jornalismo com muitos professores que nunca estiveram em uma redação. Da mesma maneira que Vinicius (ele é arquiteto) teve aula com professores que nunca chegaram a fazer um projeto daquilo que ensinavam a fazer. Alguns professores se dedicam aos estudos, outras pessoas saem dos bancos da faculdade, direto para a mão na massa. Cada um com suas escolhas.

A única coisa que me deixa preocupada e até um pouco chateada é que parece que para tudo na vida perdemos aquele meio termo, sabe? Até mesmo no meu grupo de amigos mais próximos – os malas – isso acontece e me irrita também (mas eu continuo amando vocês! Risos). Parece que todo mundo vive com certezas absolutas sem nem mesmo saber o mínimo sobre o que está sendo falado. Para cada assunto, um lado parece que precisa ser escolhido. E é isso que eu acho ruim.

Já tinha falado aqui, no início do ano, sobre esses novos empreendedores e como eles pareciam aqueles caras que eram “diamante” da Amway de antigamente – quando ela era a pirâmide da moda por aqui. Os “seguidores” desses empreendedores de palco, parecem sofrer de lavagem cerebral e gritam quase um “Go Diamond” para tudo o que os caras falam, como se fosse assim “faça igual a mim e você vai alcançar o sucesso”. Da mesma maneira, quem não é um “seguidor” passa a adotar a posição de hater e adota o discurso de “Meu Deus!! Esses caras não prestam! São terríveis, uns lixos, as piores pessoas do mundo, uns bostas que só falam besteira e iludem as pessoas”.

Não é bem por aí. O estudo, a dedicação, o conhecimento, o networking, o talento e o trabalho duro é que vão te levar para o lugar que você quiser. Os empreendedores – tanto os que vendem alguma coisa, quanto os que se vendem – podem ser inspirações de alguma maneira, mas não são donos da verdade e nem devem ser mitos, ídolos que uns endeusam e outros ficam na torcida para que caiam.

 Me entristece ver o tanto de gente que vibrou com “as verdades reveladas” sobre a Bel Pesce, quando nunca nem mesmo levantaram o bumbum da cadeira para fazer alguma coisa na vida. O que me parece é que muita gente fica igual a urubu atrás de carniça, reclamando da vida que leva, mas vibrando quando alguém que fez diferente acaba se dando mal de alguma maneira.

É claro que não acho lindo quem se vende dando uma valorizada no seu produto, mas é isso o que todo e qualquer produto faz. Ou você acha que vai “pegar um mulherão” só porque está tomando determinada cerveja? Ou que vai encontrar o Bruno Gagliasso sem camisa ao usar uma havaiana?

Agora, a decisão se vale ou não a pena comprar aquela ideia é sua. Se te servir de inspiração, que ótimo! Se você acha que não vai te acrescentar em nada, corra porque é uma cilada, Bino! Mas a sua verdade e a sua escolha também não são absolutas. É uma coisa sua e só sua.

Os empreendedores de palco podem ter muito para acrescentar a você, mas você também pode optar por livros, outros profissionais ou por se manter em um trabalho que não gosta, mas que é mais cômodo para você. Temos a liberdade de fazer o que quisermos, de comprar o que a gente achar melhor e de ser o que quisermos ser.

Será que tanta gente compraria chiclete se na propaganda dele, ao invés de mostrar que você ganha um hálito fresco, eles dissessem que você vai comer substâncias feitas de vários derivados do petróleo, como resina e parafinas. Além de porções menores de açúcar ou adoçante, xarope de glicose, corantes e aromatizantes? O chiclete realmente refresca o hálito, mas é feito de tudo isso. O que divulgar na hora de vender? Resta a você pesquisar e saber se quer ou não comprar.

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12 de Setembro de 2016

Teatro: O Autofalante de Pedro Cardoso

Ontem fui com o Vi ao teatro assistir O Autofalante de Pedro Cardoso. Quando vi que ele estaria em cartaz aqui em Niterói, já era quase tarde demais, pois vi apenas no sábado, quando estávamos indo ao Parque Olímpico e no domingo teríamos um churrasco com o pessoal do trabalho do Vi. Mas depois de ler um milhão de elogios ao monólogo no Facebook do meu amigo Jonas, acabei comprando o ingresso. Teríamos que voltar mais cedo do churrasco, mas estava com a certeza de que valeria a pena.

Pedro Cardoso é genial. Ao contrário de 99% dos espetáculos teatrais, ele entra em cena falando tudo o que a maioria dos atores deixa para falar no final. Agradece a presença de todos, fala sobre tudo o que “não incomoda” um ator em cena: atender o celular, conversar com um amigo do lado durante a peça, ficar usando o celular para tirar fotos, levantar durante a apresentação, chegar atrasado e por aí vai. Uma pena que nem todos entenderam que aquilo era uma ironia e acreditaram mesmo que era frescura dos atores que se incomodavam com tudo aquilo e que o Pedro Cardoso era perfeito por simplesmente não se importar.

o-autofalante

Quando a peça começou, descobri que era a mesma que eu já tinha assistido há pouco mais de dez anos. Acho que foi em 2005, talvez 2004, no Rio. Naquela época, acho que saí do teatro com a bochecha doendo horrores de tanto que eu tinha rido, mas não me lembro de ter ficado com tantos questionamentos na cabeça, nem de ter percebido a beleza da crítica feita naquele monólogo.

Ontem, saí do teatro feliz de perceber que muitos ainda se preocupam em fazer arte inteligente, humor com qualidade, não aquela coisa vazia que também cansamos de ver por aí. O Autofalante de Pedro Cardoso foi escrito no início dos anos 90, mas acho que nunca foi tão atual quanto agora. O texto reflete MUITO o que vivemos e a interpretação dele é sensacional.

“Pedro Cardoso está de volta aos palcos, após nove anos desde sua última temporada, e retoma um trabalho antigo: O Autofalante, escrito e encenado pela primeira vez vinte e três anos atrás. O monólogo trata de um surto identitário provocado, não apenas pelo estado de sofrimento em que se encontra o personagem (perdeu seu emprego, sua mulher, a mobília, e seu telefone não funciona), mas também por determinados tipos contemporâneos de comunicação em que nos encontramos constantemente alijados do convívio humano. O sujeito da peça é impelido a conviver consigo mesmo, algumas vezes sem se dar conta disso, e tem sua personalidade dilacerada num estágio tal, que o levou a cortar relações com ele próprio. O humor advindo desse estado de desespero surge violento, quase trágico. O riso é generoso, e não esconde a gravidade da situação. A peça nos defronta com um terreno perigoso, o da tênue separação entre solidão e esquizofrenia, ao mesmo tempo em que trata de como a comunicação e a ideia de identidade atuais revelam tendências esquizofrênicas, expressas em nossas relações com máquinas, ou por músicas que invadem nossas cabeças, revelando o quanto não dominamos nossos pensamentos.”

Essa é a sinopse da peça, mas acredito que o texto vai muito, muito além de tudo isso. Outro dia, lendo um livro do Rubem Alves, ele disse que nem sempre podemos definir o que cada pessoa vai entender sobre aquilo que escrevemos/dizemos. Podemos escrever um livro pensando que deixamos clara a nossa opinião sobre aquele assunto, o nosso posicionamento ou a nossa realidade, mas quando ele começa a ser lido por outras pessoas, poderá ter um milhão de interpretações, vai depender do contexto que cada uma daquelas pessoas vive, das experiências que já tiveram e por aí vai.

Por isso, acho que O Autofalante do Pedro Cardoso atingiu cada um que estava ali no teatro de uma maneira diferente e cada um entendeu o monólogo de um jeito. Alguns, estavam ali apenas se divertindo.

Se fosse feita uma pesquisa com todos no final da peça, provavelmente cada um falaria uma coisa. Alguns diriam que a peça é a história de um cara maluco e que é muito engraçada. Outros poderiam dizer outras coisas. Já para mim, a peça tem uma crítica profunda sobre o nosso comportamento, nossos pensamentos e – por que não? – o cenário político do país. Tudo de maneira quase sutil.

Em três ou quatro momentos da peça, o personagem assiste televisão e o que vemos são cenas da nossa sociedade, dos programas de televisão, entrevistas, imagens que foram transmitidas em algum momento do mundo. E a gente fica pensando no tipo de informação que é passada, no tipo de conteúdo que somos bombardeados e de que maneira percebemos tudo aquilo, sem poder falar nada de volta. Como o personagem o tempo todo se questiona “Por que a televisão não tem orelha?” Somos “obrigados” a assistir aquilo sem ter voz para dizer sobre o que não concordamos, sobre o que achamos que não é verdade, sobre o que estão nos enganando. Aquelas cenas mostram como somos manipulados, como falam em nome de Deus, de verdades que nem sempre são realmente verdades e como aquilo pode “atingir” as pessoas que simplesmente acreditam em tudo o que ouvem. Afinal, vocês nunca ouviram ninguém falar “Menina, deu na televisão! Você quer saber mais do que eles?”?

Ao sair da peça, uma pessoa atrás de mim comentou: “Nossa! Muito engraçado, né? Ele é muito bom. Só achei desnecessárias aquelas partes da televisão!”. No primeiro momento, respirei fundo e pensei: Por que, meu Deus?! Por que a pessoa não entendeu nada?! Mas depois eu lembrei exatamente do texto que encerrava a peça, quando ele diz algo mais ou menos assim: “Por que as pessoas ficam tão chateadas com o que eu digo, com o que eu penso? Se existe liberdade de expressão, por que tantas pessoas se ofendem apenas por eu pensar diferente?”

E aí eu percebi como julgamos o tempo todo até sem perceber. Quem disse que todo o meu “entendimento” é o correto? E o que é correto? Existe o pensamento certo e o errado para todos os casos? Existe o ótimo e péssimo para todas as situações, histórias e coisas? Quanto mais defendermos a nossa opinião sem nem ouvir quem pensa diferente, mais e mais estaremos falando sozinhos. Como disse Pedro Cardoso em uma das cenas de O Autofalante, “ninguém ouve de verdade o outro, todos apenas ficam esperando ansiosamente o outro parar de falar para poder dizer o que pensa”.

O Autofalante termina com um texto maravilhoso – se alguém souber em que lugar posso encontrar, agradeço!! Pedro Cardoso, ou Maria (filha dele!! kkkkk), se um de vocês dois, por acaso, passar por aqui para ler o meu “autofalante” e se puderem enviar pelo menos o texto que encerra a peça para mim, ficarei eternamente grata (fernanda@fernandabelem.com.br)  – e com uma música do Cartola que eu AMO!

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar”  

 

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