21 de Abril de 2017

Mais bonecas para os meninos

Estava assistindo o Encontro com a Fátima Bernardes hoje e ela entrevistou dois pais que são completamente apaixonados por suas filhas. Um dos pais teve que se transformar também em mãe, pois ele perdeu a esposa quando sua filha ainda era bem pequena. Ele estava contando que tudo foi muito novo e diferente para ele, pois veio de uma criação que os pais nunca estiveram muito presentes e sempre eram as mães as responsáveis por tudo em casa. Além disso, ele também comentou que cresceu com aquelas brincadeiras ditas “de menino”.

Achei legal que na sequência um dos convidados do programa, disparou – Mais bonecas para os meninos!

Naquela hora, eu abri um sorriso de orelha a orelha, pois concordo totalmente com ele. Esse ano mesmo, tive uma discussão sobre isso com amigos e família. Muita gente acredita que são brinquedos, brincadeiras que irão definir a sexualidade de seus filhos. Confesso que acho isso uma bobeira sem tamanho.

Quando eu era pequena, tinha um melhor amigo e a gente brincava de tudo. Tinha dias que eu era um super herói e nós dois tínhamos que derrotar os inimigos imaginários com nossas espadas. Outros dias ele era o paquito, eu era a Xuxa e minhas bonecas eram o público. Também existiram aqueles dias que eu era motorista de um dos seus carrinhos e ia abastecer naquele posto sensacional, que também tinha lugar para lavar o carro. E, é claro, também existiram os dias de família, que a gente tinha que levar as filhas para as escolas, os dias de professor e aluno, de secretária e cliente, telefonista, polícia e ladrão e por aí vai. Nenhuma dessas brincadeiras definiu a minha sexualidade, mas muitas delas me ajudaram a moldar o meu caráter e a minha evolução como pessoa.

Quando disse em um churrasco esse ano que acho um absurdo um menino não poder brincar de boneca, ouvi que o que se puder evitar durante a primeira infância para despertar no menino o interesse pelo mesmo sexo, precisa ser evitado. Também ouvi de outras pessoas que a sociedade não aceita meninos brincando com bonecas.

Sério, gente?

Meninos que brincam com bonecas não terão suas opções sexuais definidas por esse motivo, mas com toda a certeza do mundo serão pais e maridos melhores no futuro. Da mesma maneira que muitas meninas que sempre amaram boneca, cresceram com o sonho de um dia poder “voltar a brincar com elas”, realizando o sonho de ser mãe, os meninos passariam a sonhar com a paternidade no futuro, sem apenas encarar isso como uma “função” e com o pensamento de que são os responsáveis pela questão financeira e horas de lazer. Os meninos vão crescer sabendo que um pai não “ajuda” uma mãe, ele divide tarefas que são dos dois. Simples assim.

O Juliano Cazarré disse que o filho dele ama brincar com panelinhas. Isso não vai ser o que vai decidir a sexualidade dele, mas pode ser o início de uma paixão profissional ou apenas um prazer. Por que os meninos não podem brincar de panelinha? Homem não pode cozinhar e nem gostar de gastronomia? Ah, tenha dó!

Enquanto o machismo imperar, enquanto essas pequenas bobagens forem vistas como definidoras da sexualidade das crianças, enquanto continuar essa grande besteira de “isso é brinquedo de menino, isso é brinquedo de menina”, enquanto os pais disserem para a filha que ela só vai poder namorar aos 18 anos e para o filho que ele tem que começar a paquerar com 10… Nada vai melhorar.

Li outro dia em um livro que não devemos criar filhos, devemos criar futuros adultos. E essa é a mais pura verdade. A preocupação com a formação do caráter, de um adulto melhor do que somos, deveria ser muito mais importante do que com a opção sexual do filho no futuro. É melhor ensinar o filho a respeitar a todos, sejam eles quem forem e o que escolherem para suas vidas, do que ter filhos preconceituosos, agressivos, machistas.

Mais bonecas para os meninos, menos preconceito no mundo e adultos melhores no futuro. Família divide tarefas, não é um “ajudando na função” do outro. A casa e os filhos são tanto da mãe quanto do pai. Os dois são responsáveis por tudo isso juntos. Pelo menos é essa a minha opinião.

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07 de Fevereiro de 2017

Coisas que não entendo: Vamos falar sobre licença paternidade?

Estava dando aquela passadinha de olhos no Facebook quando tive a infelicidade de ver uma matéria do Jornal O Globo com o seguinte título: “Mães que trabalham seriam responsáveis por sobrepeso e obesidade dos filhos, diz pesquisa“. No mesmo instante o meu sangue ferveu. Para não cometer nenhuma injustiça, já que a internet está cheia de gente compartilhando notícias falsas, resolvi jogar no Google antes de compartilhar, para ver se aquela imagem era uma montagem ou se realmente era uma matéria do Jornal O Globo. Infelizmente ela é real. Não é recente, foi publicada em 2011, mesmo assim, não é tão velha assim.

Sabe, vez ou outra eu me pego lendo coisas sobre “esse povo chato” que “hoje fica de mimimi para tudo”. E quando leio matérias como essa, penso logo em quem critica aqueles que lutam por uma sociedade mais justa, menos preconceituosa, mais inteligente, com pessoas com capacidade de pensar e fazer algo por outras pessoas.

Uma amiga outro dia falou “As pessoas que discordam do Bolsonaro, não entendem o que ele diz. Por exemplo, é óbvio que eu concordo com ele que as mulheres devem receber menos que os homens. Para uma empresa, é muito mais caro ter uma mulher como funcionária. A mulher tem direito a seis meses de licença maternidade. Quando o filho cai na escola, fica doente ou qualquer outra coisa do tipo, a mãe acaba faltando o trabalho. Para a empresa, é muito melhor que o funcionário seja homem, pois ela nunca precisa se preocupar com isso”.

Eu chego a sentir vontade de chorar com esse tipo de comentário, sabe? Parece que tudo evolui com o tempo, menos o pensamento.

Não consigo entender a licença maternidade ser apenas para a mãe. A sociedade hoje é outra, os tempos mudaram. Não existe uma licença paternidade no Brasil. Pelo que pesquisei – se estiver errada, por favor, me corrijam – por aqui, os papais têm o direito a ficar sem trabalhar por cinco dias (li que em março de 2016 a presidente Dilma Rousseff sancionou uma nova lei que estende a licença-paternidade de cinco para 20 dias, mas isso não seria obrigatório para todas as empresas naquele momento e não sei como está isso hoje. Para ler mais, é só clicar aqui.) . CINCO DIAS!! Ou seja, dois na maternidade, três em casa. Depois disso, a mãe precisa se virar sozinha, com a ajuda das avós ou de uma ajudante.

Alguns países da Europa deixam livre para que os pais decidam o que fazer com os 100 dias (alguns países dão mais, outros menos) de licença. Eles podem dividir igualmente ou decidir que um volte antes e o outro fique mais tempo com a criança – sem que necessariamente seja a mãe, a não ser que seja isso que ela queira.

Desculpas para o preconceito não fazem ninguém evoluir. O combate a ele é que pode provocar mudanças. Acredito que a licença paternidade é importante na construção de uma sociedade mais igual, em que homens e mulheres possuem os mesmos direitos e deveres, também na criação dos filhos. Caso contrário, a falta de educação, a obesidade da criança, “o filho largado”, sempre será culpa da mãe que escolheu trabalhar ao invés de ficar cuidando da casa e da cria.

No livro que estou lendo “O Segredo da Dinamarca”, a autora descobre que lá é muito comum ver tanto os pais quanto as mães assumindo as responsabilidades pela criança. Levar e buscar na escola, participar de confraternizações, organizar festas, participar de reuniões… Todas essas coisas são responsabilidades assumidas por ambos. Assim como a licença maternidade e paternidade também permite que ambos cuidem dos primeiros choros, primeiras trocas de fralda, sem sobrecarregar apenas um.

Enquanto o pensamento não mudar, manchetes lamentáveis como a do Jornal O Globo  e comentários que justificam preconceitos de outros, nunca vão deixar de existir. O que é completamente lamentável.

Fica como informação:

14 países com a licença paternidade mais longa (segundo a Revista Forbes de 2015):

1º) Coreia do Sul

Semanas de licença paternidade remunerada: 52,6

2º) Japão

Semanas de licença paternidade remunerada: 52

3º) França

Semanas de licença paternidade remunerada: 28

4º) Luxembrugo

Semanas de licença paternidade remunerada: 26,4 (empatado)

4º) Holanda

Semanas de licença paternidade remunerada: 26,4 (empatado)

6º) Portugal

Semanas de licença paternidade remunerada: 21,3

7º) Bélgica

Semanas de licença paternidade remunerada: 19,3

8º) Noruega

Semanas de licença paternidade remunerada: 14

9º) Islândia

Semanas de licença paternidade remunerada: 13

10º) Suécia

Semanas de licença paternidade remunerada: 10

11º) Finlândia

Semanas de licença paternidade remunerada: 9

12º) Áustria

Semanas de licença paternidade remunerada: 8,7 (empatado)

12º) Alemanha

Semanas de licença paternidade remunerada: 8,7 (empatado)

12º) Croácia

Semanas de licença paternidade remunerada: 8,7 (empatado)

As pessoas gostam tanto de usar exemplos de “países de primeiro mundo” e por que não fazem isso também na hora de pensar na criação dos filhos?

Enquanto escrevia, lembrei de outra amiga que esses dias disse: “mulheres que querem trabalhar só para se sentirem na moda, ganhando bem e tal, deixam seus filhos sendo criados por qualquer um”. E por que não pensar o mesmo do pai? Por que não pode ser o pai a deixar o emprego para assumir esse papel?

Sinceramente, acho que os pais podem dar muito amor, boa educação, valores e carinho mesmo trabalhando fora. É só saber manter o equilíbrio, saber dosar família, trabalho e diversão. Talvez seja por isso que tantos pais se separam na chegada da criança, pois a responsabilidade é jogada nas costas de uma pessoa só, enquanto o outro deseja continuar sem os novos deveres e responsabilidade de uma família maior.



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