17 de Novembro de 2017

Nem tudo acontece como planejamos

Que semana! Realmente nem tudo acontece como planejamos, mas isso só nos ensina a ser mais fortes e a aceitar que não estamos no controle de tudo. Precisamos relaxar e aprender com os acontecimentos. Desde o início da gravidez eu ficava pensando: Quando chegar ao final, vou me concentrar mais em mim, relaxar mais, ouvir músicas calmas no final de todos os dias e me conectar comigo mesma.

Cheguei na semana 39 na segunda-feira! A semana que eu mais imaginava viver momentos dignos de um Spa. Água quente nos pés, as músicas que escolhi para o parto, noites tranquilas como eu vinha tendo até então. Eu só não imaginava que assim que entrasse nessa semana, tudo seria diferente.

Valentina começou a acordar várias vezes na madrugada precisando ir ao banheiro – ei, eu é que tinha que sentir essas vontades!!! – e na madrugada de quinta-feira ela acordou várias vezes para vomitar. Acordamos junto com ela todas as noites e nessa que ela passou mal, ficamos os três acabados, às cinco e meia da manhã estávamos encolhidos no sofá, para não ter que voltar mais uma vez ao quarto e depois precisar sair de novo para socorrer nossa filhinha de quatro patas.

Assim que amanheceu, dia da minha tão esperada consulta com a obstetra, estávamos caindo de sono, mas pegamos a primeira roupa que encontramos no armário e fomos levar a Valentina em uma clínica veterinária. Examina daqui, examina dali, Raio X, Ultrassonografia e um diagnóstico de possível infecção intestinal. Entre uma coisa e outra, só deu tempo de passar em casa, engolir o almoço e correr para a consulta da tarde, a minha consulta.

Nos nove meses, nunca cheguei atrasada, sempre fomos a pé, com tempo de sobra para chegar na maior tranquilidade. Mas não na 39ª semana. Fomos de carro e descobrimos que Niterói estava tendo poda de árvores, fechando algumas ruas e engarrafando muitas outras. Um caminho que deveria demorar no máximo cinco minutos, foi feito em 40. Ah, e decidimos ir de carro não só “para chegar mais rápido”, mas também porque estava TANTO calor, que era melhor me deixar ter pelo menos um pouquinho daquele “Spa” no ar geladinho do carro. Certo?

Errado. O ar do carro resolveu pifar. Isso mesmo!! Exatamente naquele dia, naquele momento. Não poderia ser nem um dia depois ou um dia antes. Teve que ser naquele dia, naquela semana – essa semana. Cheguei no prédio do consultório e os elevadores que sempre estão no térreo, estavam todos nos andares mais altos. Quando um finalmente chegou, olhei para Vinicius e falei “do jeito que o dia está hoje, nada me surpreenderia se ele parar no térreo e lotar”. Maldita boquinha. O elevador, que nos nove meses que fui frequentemente ao consultório sempre subia vazio, foi sendo preenchido de gente. Vinicius me olhou, eu dei uma risada, mas também senti meus olhos encherem de lágrima. Que dia!

As lágrimas nem mesmo chegaram a cair. Chegando mais de meia hora atrasada na obstetra, preferi rir de tudo aquilo que  resolveu acontecer logo no final da gravidez. Na minha provável última consulta, lá estava eu de chinelo, sem brinco, suada, cansada, com a primeira roupa que pesquei no armário naquela manhã. Nem tudo é do jeito que planejamos. Pelo menos a consulta foi maravilhosa como sempre e estamos todos esperando a hora que a Julinha vai resolver conhecer o mundo.

Voltamos para casa, para a Valentina e seguimos com a preocupação. Ela toda molinha, bem diferente da cachorrinha ativa que sempre está animada para brincar com a gente. Que peninha.

Mais uma noite sem dormir muito bem, acordando todas as vezes que ela acordava. Mais uma manhã com ela quietinha, sem disposição. O que fazer? Ir nas clínicas próximas? Claro que não. O que seria dessa reta final da gravidez se não tivesse emoção? Spa? Musicas calminhas? Momentos relaxantes? Pra quem? Resolvi buscar o primeiro veterinário da Valentina, o veterinário que tinha cuidado dela em todo o primeiro ano de vida. Não queria mais ficar conhecendo outros veterinários, queria alguém que já conhecesse um pouquinho dela. E aí descobrimos que ele estava atendendo em Itaipu.

Lá fomos nós. Sem ar-condicionado no carro, com um calor de um sol para cada um. Já estava bom de emoção, não é mesmo? Bom, acho que alguém queria mesmo me mostrar que a vida é um eterno não planejar de coisas, que tudo pode sair fora do lugar, mas que mesmo assim dá certo no final. Eu entendi! Entendi perfeitamente. Principalmente depois de ter um pneu murcho com um prego que o esvaziou no caminho até a clínica veterinária.

Apesar de todas as emoções, conseguimos ter uma avaliação legal do veterinário, remédios que dessa vez fizeram mais efeito e deixaram a Valentina mais animadinha e com vontade de comer de novo. Também conseguimos voltar para casa em segurança e bem.

Perfeita essa imagem que achei no Pinterest para resumir essa semana!

Poderia estar revoltada por não ter tido a semana que eu tanto esperei. Poderia estar nervosa por estar mais cansada e por tudo o que aconteceu. Mas estou feliz. Feliz por ter a nossa cachorrinha ao nosso lado, torcendo para que ela possa melhorar nos próximos dias com os remédios e que volte a ter toda energia de sempre. Tranquila por estar com a pressão do meu corpo ótima, mesmo com toda a alta pressão da semana. E feliz por ter rido no final de tudo, por ter percebido que nesses nove meses eu já evoluí muito como pessoa e que não culpo nada, nem ninguém por não ter o dia perfeito, o dia que eu tinha planejado ter.  Eu realmente aprendi que nem tudo acontece como planejamos e tudo bem.

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28 de Setembro de 2017

Cosme, Damião e a Goiabada da Flamenguista

Fui daquelas crianças que eram crianças de verdade. Adorava brincar, imaginar e inventar histórias. Quando saía da escola, acho que minha mãe tinha vontade de me pegar com as pontas dos dedos para jogar dentro da máquina de lavar. Assim, inteira, de tão suja que eu ficava. Mas como era bom ser criança daquele jeito! Tão bom que eu guardo todos aqueles momentos na lembrança, mesmo que tenham acontecido há tanto tempo.

Na minha escola tinha um tanque de areia que eu chamava meus amigos para brincar de tudo naquele lugar. Um dia, lá era o mar e a gente precisava nadar para fugir dos piratas. Outro dia, a areia virava um pântano e a gente tinha que viver grandes aventuras para conseguir sair de lá com vida. A terra também se transformava em neve, cartinhas do programa da Xuxa e por aí vai.

No final do dia, o resultado de tanta imaginação era uma Fernanda imunda, com joelhos ralados e pele encardida.  Todo dia era assim e no dia de Cosme e Damião não foi diferente.

– Mãe, posso pegar doce no prédio? – pedi enquanto voltávamos para casa.

– Fernanda, você não vai passar na casa dos outros estando imunda desse jeito. Depois do banho eu deixo.

– Ah, não! Eu quero um docinho, mãe!! Enquanto a gente sobe, vamos parando em alguns andares para que eu possa pedir.

– Você vai sozinha, então! Não vou aparecer do seu lado na casa de ninguém.

De tanto insistir, minha mãe deixou que eu tentasse pelo menos um apartamento. Apertei o terceiro andar e fui tocar a campainha da casa da flamenguista do meu prédio. Ela era uma senhorinha simpática, torcedora fanática do time rubro-negro do Rio.

Quando ela abriu a porta, ofereci o meu melhor sorriso.

– Tem doce? – perguntei.

Ela me olhou de cima a baixo, não percebeu que eu também morava lá no prédio e que estava apenas pedindo saquinhos de Cosme e Damião, mas acho que ficou com pena de mim e pediu que eu esperasse um instante.

Olhei para o corredor e fiz uma cara de “ahá, consegui!” para a minha mãe. No minuto seguinte a flamenguista voltou com uma peça inteira de goiabada cascão e me entregou.

Fiquei parada olhando para aquele doce que eu nem mesmo sabia o que era. Ela sorriu e fechou a porta. Com a cara amarela entrei no elevador com aquele pedaço enorme de goiabada e a minha mãe caiu na gargalhada.

Depois disso, voltava da escola e ia direto para o banho e nunca mais fui até a casa dos vizinhos pedir docinhos de Cosme e Damião.

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