28 de Setembro de 2017

Cosme, Damião e a Goiabada da Flamenguista

Fui daquelas crianças que eram crianças de verdade. Adorava brincar, imaginar e inventar histórias. Quando saía da escola, acho que minha mãe tinha vontade de me pegar com as pontas dos dedos para jogar dentro da máquina de lavar. Assim, inteira, de tão suja que eu ficava. Mas como era bom ser criança daquele jeito! Tão bom que eu guardo todos aqueles momentos na lembrança, mesmo que tenham acontecido há tanto tempo.

Na minha escola tinha um tanque de areia que eu chamava meus amigos para brincar de tudo naquele lugar. Um dia, lá era o mar e a gente precisava nadar para fugir dos piratas. Outro dia, a areia virava um pântano e a gente tinha que viver grandes aventuras para conseguir sair de lá com vida. A terra também se transformava em neve, cartinhas do programa da Xuxa e por aí vai.

No final do dia, o resultado de tanta imaginação era uma Fernanda imunda, com joelhos ralados e pele encardida.  Todo dia era assim e no dia de Cosme e Damião não foi diferente.

– Mãe, posso pegar doce no prédio? – pedi enquanto voltávamos para casa.

– Fernanda, você não vai passar na casa dos outros estando imunda desse jeito. Depois do banho eu deixo.

– Ah, não! Eu quero um docinho, mãe!! Enquanto a gente sobe, vamos parando em alguns andares para que eu possa pedir.

– Você vai sozinha, então! Não vou aparecer do seu lado na casa de ninguém.

De tanto insistir, minha mãe deixou que eu tentasse pelo menos um apartamento. Apertei o terceiro andar e fui tocar a campainha da casa da flamenguista do meu prédio. Ela era uma senhorinha simpática, torcedora fanática do time rubro-negro do Rio.

Quando ela abriu a porta, ofereci o meu melhor sorriso.

– Tem doce? – perguntei.

Ela me olhou de cima a baixo, não percebeu que eu também morava lá no prédio e que estava apenas pedindo saquinhos de Cosme e Damião, mas acho que ficou com pena de mim e pediu que eu esperasse um instante.

Olhei para o corredor e fiz uma cara de “ahá, consegui!” para a minha mãe. No minuto seguinte a flamenguista voltou com uma peça inteira de goiabada cascão e me entregou.

Fiquei parada olhando para aquele doce que eu nem mesmo sabia o que era. Ela sorriu e fechou a porta. Com a cara amarela entrei no elevador com aquele pedaço enorme de goiabada e a minha mãe caiu na gargalhada.

Depois disso, voltava da escola e ia direto para o banho e nunca mais fui até a casa dos vizinhos pedir docinhos de Cosme e Damião.

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27 de Janeiro de 2017

Trauma da Barbie – Pérolas da minha mãe

Uma  vez eu comentei em algum lugar – não lembro mais qual – que sempre morri de vontade de brincar de Barbie, mas que a minha mãe achava besteira e nunca tinha me dado uma. Amava quando uma amiga do meu prédio me chamava para brincar na casa dela, pois ela tinha várias bonecas, roupinhas, a casa e o carro da Barbie. Ficava o dia inteiro por lá. Era o dia inteiro de histórias inventadas e um mundo que a gente criava para aquelas bonecas.

Minha mãe falou que nem lembrava o motivo de nunca ter comprado uma, mas que não imaginava que eu  lembraria daquilo para sempre. Já rimos algumas vezes disso.

Ontem, estava no meio de uma revisão de texto quando vi que ela tinha mandado uma mensagem.

Fiquei rindo sozinha, olhando para o celular, imaginando o que passou pela cabeça dela quando levou a Barbie para casa antes de dar para alguém que realmente pudesse brincar com ela. E pior, o que ela estava pensando quando me escreveu do nada, perguntando se eu ia querer.

Será que ela realmente imaginou que depois de todos esses anos eu adoraria ganhar uma Barbie, a casa, o namorado e as amigas da boneca? Só minha mãe mesmo…



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