15 de Fevereiro de 2017

O que fazer com todo o meu ciúme?

Esses dias uma amiga me perguntou “O que eu posso fazer com todo o meu ciúme?”. Ela estava agoniada, pois tinha brigado com o namorado por esse motivo. Na verdade, ela sempre tem alguns surtos de ciúme que chegam sem avisar, por um motivo qualquer e – muitas vezes – sem motivo nenhum.

Sempre fui uma pessoa ciumenta. Na primeira fase do meu namoro com Vinicius, quando estava descobrindo o que era um relacionamento, com 15 anos, a insegurança era uma companheira fiel. Eu vivia em estado de alerta, com medo de que Vinicius pudesse conhecer outra garota ao virar uma rua qualquer e que me deixaria a qualquer momento.

Conforme fui crescendo e amadurecendo, percebi que amores não são trocados como quem troca de roupa. Quando isso acontece, é porque não era amor. E se não era, é melhor que termine logo do que alimentar algo que não é para ser.

Depois que eu e Vinicius voltamos, nosso relacionamento passou a ser outro. O ciúme foi substituído por segurança, amor, carinho, respeito, companheirismo, conhecimento e uma vontade enorme de fazer o outro cada vez mais feliz.

Tudo começou a mudar antes mesmo de voltar a namorar Vinicius. Eu tinha um amigo que era muito mulherengo e a gente conversava muito. Ele falava abertamente sobre todo tipo de assunto comigo. E uma vez eu estava contando para ele sobre como eu tinha sido ciumenta no passado e não sabia se seria novamente se eu e Vinicius realmente voltássemos a ficar juntos.

– Fernanda, você realmente acredita que ciúme resolve alguma coisa?

Aquilo nunca mais saiu da minha cabeça. Não é o meu ciúme que vai fazer com que Vinicius nunca sinta vontade de me trair. Cobranças, cenas de raiva, brigas… Isso tudo só prejudica uma relação. A confiança é a melhor coisa para um relacionamento saudável.

Minha amiga disse que fica com raiva de imaginar que pode ser traída e por isso, cobra o tempo inteiro. E ainda disse que fica com raiva por ele não sentir ciúme nenhum.

Ciúme não muda o caráter do outro. Se ele não tiver um bom caráter, suas cobranças não vão resolver nada, talvez até mesmo o instigue a fazer realmente alguma coisa. O melhor a fazer é estar com quem você ama e junto com o seu parceiro construir uma relação saudável, de muito amor, respeito, compreensão e uma vontade enorme de ficar juntos.

O medo de perder faz com que você viva com uma pulga atrás da orelha, não permite que você seja feliz e acaba destruindo relacionamentos. Não tenha medo. Se existe amor, entregue-se. Pode acabar? Pode. Qualquer relacionamento pode ter um fim. Mas isso não quer dizer que não foi maravilhoso enquanto existiu. Aproveite todos os momentos. Eles podem ser para sempre ou não. O importante é que você viva de verdade o presente e se tiver que dar certo no futuro, vai dar. Não estrague tudo pelo medo de perder.



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26 de Dezembro de 2016

De que maneira precisamos ficar bem informados? “Há quem tenha medo que o medo acabe”

Ontem, assistindo o Fantástico, eu comentei com Vinicius sobre como seria legal se os jornais fossem sempre como as primeiras notícias do programa nesse Natal. Vocês assistiram? Foram várias matérias lindas, positivas, mostrando pessoas que fizeram o bem de alguma maneira, projetos legais e por aí vai. “Mas não pode ser sempre assim, pois precisamos nos informar do que acontece no mundo”. Tem razão, lamentei e concordei. Mas aí, um tempo depois, o próprio Fantástico fez o seguinte comentário: Muitas dessas ações positivas de cidadãos comuns acontecem diariamente, mas nunca são noticiadas.

Opa! pensei no mesmo instante. Por que sempre precisamos ficar bem informados do que acontece de ruim? Por que a ideia de bem informado não serve para a parte boa da vida? Saber que um filho matou um pai é mais notícia do que um filho que mesmo sem nenhuma condição, conseguiu vencer na vida e fez algum gesto grandioso em homenagem aos pais que fizeram tudo o que puderam para que ele conquistasse seus sonhos? Um assalto é mais importante como manchete de jornal do que um mendigo que devolveu para alguém uma carteira ou um celular caído no chão? Por quê? Por que sempre pensamos que para ficar bem informados precisamos saber tudo de ruim que acontece por aí?

Sabe, sempre que comentava sobre como seria melhor se os jornais publicassem notícias boas e ouvia de volta que isso seria como ficar alienado do mundo eu acabava concordando. Mas depois de pensar sobre isso ontem, depois de o Fantástico esfregar na minha cara que boas ações acontecem todo dia, só não possuem espaço na mídia eu mudei de ideia. Que alienação é essa que precisa apenas ser alimentada de coisas ruins, desastres, catástrofes e tragédias? É alienado também o indivíduo que pensa que o mundo está cada vez pior, não tem mais solução, pois todo mundo é mau. Quando na verdade, existem milhares de pessoas boas, fazendo coisas maravilhosas por aí.

Por que a imprensa esportiva achou melhor não mais mostrar brigas de torcidas? Para não incentivar mais brigas nos estádios. E por que o mesmo não vale para todo o resto?

Existe um discurso do Mia Couto sobre o medo que é fantástico e aqui vai um “pedacinho”  – bem grande – para vocês:

há, neste mundo, mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas.

O que era ideologia passou a ser crença. O que era política, tornou-se religião. O que era religião, passou a ser estratégia de poder.

Para fabricar armas, é preciso fabricar inimigos. Para produzir inimigos, é imperioso sustentar fantasmas.

A manutenção desse alvoroço requer um dispendioso aparato e um batalhão de especialistas que, em segredo, tomam decisões em nosso nome. Eis o que nos dizem: para superarmos as ameaças domésticas, precisamos de mais polícia, mais prisões, mais segurança privada e menos privacidade. Para enfrentarmos as ameaças globais, precisamos de mais exércitos, mais serviços secretos e a suspensão temporária da nossa cidadania.

Todos sabemos que o caminho verdadeiro tem que ser outro. Todos sabemos que esse outro caminho poderia começar, por exemplo, pelo desejo de conhecermos melhor esses que, de um e de outro lado, aprendemos a chamar de “eles”. Aos adversários políticos e militares juntam-se agora o clima, a demografia e as epidemias. O sentimento que se criou é o seguinte: a realidade é perigosa, a natureza é traiçoeira e a humanidade, imprevisível.

Vivemos como cidadãos, e como espécie, em permanente situação de emergência. Como em qualquer outro estado de sítio, as liberdades individuais devem ser contidas, a privacidade pode ser invadida e a racionalidade deve ser suspensa. Todas essas restrições servem para que não sejam feitas perguntas, como por exemplo, estas: por que motivo a crise financeira não atingiu a indústria do armamento? Por que motivo se gastou, apenas no ano passado, um trilhão e meio de dólares em armamento militar? Por que razão os que hoje tentam proteger os civis na Líbia são exatamente os que mais armas venderam ao regime do coronel Kadafi? Por que motivo se realizam mais seminários sobre segurança do que sobre justiça? Se queremos resolver e não apenas discutir a segurança mundial, teremos que enfrentar ameaças bem reais e urgentes.

Há uma arma de destruição massiva que está sendo usada todos os dias, em todo o mundo, sem que seja preciso o pretexto da guerra.

Essa arma chama-se fome.

Em pleno século XXI, um em cada seis seres humanos passa fome. O custo para superar a fome mundial seria uma fração muito pequena do que se gasta em armamento. A fome será, sem dúvida, a maior causa de insegurança do nosso tempo.

(…)

Há muros que separam nações, há muros que dividem pobres e ricos, mas não há hoje, no mundo um muro, que separe os que têm medo dos que não têm medo. Sob as mesmas nuvens cinzentas vivemos todos nós, do sul e do norte, do ocidente e do oriente. Citarei Eduardo Galiano acerca disto, que é o medo global, e dizer:

“Os que trabalham têm medo de perder o trabalho; os que não trabalham têm medo de nunca encontrar trabalho; quando não têm medo da fome têm medo da comida; os civis têm medo dos militares; os militares têm medo da falta de armas e as armas têm medo da falta de guerras.

E, se calhar, acrescento agora eu: há quem tenha medo que o medo acabe.

Pensando sobre isso, fico me questionando mais uma vez sobre o que realmente é importante noticiar e o que é interessante dar como destaque nas matérias de jornais e sites. O que seria do mundo se as notícias fossem cada vez mais positivas? E se o que é de pior do ser humano não fosse motivo de primeira página de jornal? Será que não existiria aí um aumento de bons exemplos e de pessoas sendo inspiradas a fazer coisas boas?

Por que se fala tanto da falta de leitura no Brasil, mas não existem quase programas que abram as portas para os escritores? Por que falar o que falta é mais importante noticiar do que mostrar o que já existe, o que temos de bom?

É um questionamento que me faço mais uma vez.

Não digo que precisamos viver apenas de boas notícias, sem realmente saber o que está acontecendo por aqui e no mundo. Claro que não. Mas acho que todos vocês já ouviram aquela expressão “se torcer o jornal sai sangue”. Será que realmente é necessário tudo isso? Não seria melhor dar peso para o que realmente é importante virar notícia e fazer com o resto o mesmo que já se faz com as brigas de torcida e com a invasão de campo? Será que mostrar tantas atrocidades não inspira mais atrocidades?

Enquanto os jornais dão páginas e páginas para crimes, para namoro de artistas, flagras de cantores tomando sorvete no shopping, separação de famosos e por aí vai… Avanços em pesquisas médicas, literatura, teatro, ações sociais e por aí vai não ganham nem mesmo uma notinha.

Acho que esse discurso de que querer boas notícias é querer tampar o sol com a peneira é balela. Querer que os jornais sejam cheios de sangue é viver alimentando monstros dentro e fora da gente. É continuar querendo que o medo nunca acabe. Eu concordo totalmente com o Mia Couto quando ele diz que há quem tenha medo que o medo acabe.

 




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