02 de Novembro de 2016

Leitura no Vagão – Esqueça também um livro

Oba!!! Hoje é dia de entrevista aqui no Blog com o idealizador do Leitura no Vagão, Fernando Tremonti! Estou programando diversas entrevistas legais. Quero usar esse meu cantinho no mundão da internet para compartilhar com vocês muitas inspirações, iniciativas bacanas, ideias interessantes, só coisas legais e que, de alguma maneira, podem mudar um pouco o mundo e a vida de alguém.
Descobri o projeto do Fernando há alguns anos, achei uma iniciativa MUITO legal e que me inspirou a esquecer alguns livros na barca, quando eu vou para o escritório, mas ainda não sabia como tinha surgido a inspiração para que ele começasse esse projeto lindo.
Espero que curtam a entrevista e que se inspirem com a atitude dele. O mundo precisa de mais atitudes como essa para se transformar em um lugar melhor. Reclamamos tanto dos políticos, mas dificilmente fazemos alguma coisa para mudar.
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Confiram o nosso bate-papo:
Você se apresenta dizendo “Comecei a ler fervorosamente há alguns anos”, fiquei curiosa para saber como essa prática – que eu amo – começou na sua vida. Gosto muito de saber o que leva as pessoas a se apaixonarem pelos livros. Pode me contar como foi a sua experiência?
Meus pais são professores, então sempre fui estimulado a ler. Porém, num momento da minha vida me deparei com um empasse em minhas finanças.
Foi aí que peguei um livro do Gustavo Cerbasi, que é um cara que escreve sobre finanças de uma forma extremamente agradável. Após terminar o livro vi que não sabia de nada. E foi aí que comecei a tentar absorver a maior quantidade de informações possíveis. Onde? Na leitura. Eram mais de 200 livros por ano. Naquela época eu contava, como compromisso, os livros que lia.
Adorei a sua ideia de “esquecer um livro no vagão” para melhorar a vida de alguém e estimular a leitura. Confesso que também adotei essa prática de esquecer livros quando vou trabalhar. Queria que você contasse como foi a experiência de esquecer o primeiro livro. Você viu quem pegou? Tem alguma ideia do que aconteceu depois? Já teve algum retorno de alguém que encontrou um dos livros esquecidos por você?
Sempre gostei de emprestar meus livros, mesmo que não devolvessem. Os presentes que dei e darei, em sua maioria, são livros. Quando terminava um livro, independente do lugar, deixava-o ali. Isso podia acontecer em um restaurante após o almoço, numa praça, num parque, etc. Resolvi centralizar as forças no metrô que era o meu principal meio de transporte. Dentro dele lia 2 livros por semana. E se eu conseguia, qualquer um consegue. Imprimi 70 kits – marcador e etiqueta – e personalizei os livros que tinha em casa. No folder diz para quem pegar postar nas redes sociais usando a hashtag #LeituraNoVagão para sabermos o que aconteceu com o livros. É muito legal ver que alguém encontra, por exemplo: na linha amarela sendo que foi deixado na linha verde.
– Qual foi o livro que mais te marcou até hoje? Você teria coragem de desapegar e esquecer esse livro no vagão?
Não tenho um livro que mais me marcou. Acho que sou o conjunto de todos os livros que li (e que vivi). Mas sim, tenho coragem. Aliás, já o fiz faz tempo. Não acho que um livro na estante pode mudar a cabeça de alguém. Esse livro merece ser lido por outras pessoas para que este conhecimento propague-se.
 
– O que os livros mais trazem de bom para a sua vida?
A capacidade de ver diversos pontos de vista, pensar por si próprio e não ser uma pessoa automática/robótica. A cada livro aberto um novo mundo se abre. E foi por isso que o Leitura No Vagão começou da necessidade de mostrar pra todo mundo o quão maravilhoso é ler.
– O que você acha que falta no Brasil para que mais pessoas descubram o maravilhoso mundo dos livros?
Hoje em dia o livro disputa com muita coisa: redes sociais, whats app, joguinhos . Precisamos mostrar o que o livro proporciona. Talvez, algumas pessoas nem saibam disso. Por isso o livro é deixado no banco para que a pessoa se identifique de alguma forma: seja com a capa, a sinopse, o título. E quem sabe aí, se inicie o hábito da leitura. Desconectar um pouco para entrar neste mundo é sensacional!
Vamos esquecer livros por aí?!
Gostou do projeto e quer ajudar de alguma maneira? Você pode comprar alguns produtos aqui, também pode descobrir como colaborar de outras maneiras aqui. Para seguir o Leitura No Vagão nas redes sociais: Leitura no Vagão no Facebook, no Instagram e no Twitter.
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25 de Outubro de 2016

“Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”

E aí eu decido aproveitar o domingão para tirar da minha estante algum livro que eu tenho há muito tempo, mas que ainda não tenha começado a ler. Olhei, olhei, olhei e depois de muito pensar – mais engraçadinho, mais teen, uma surpresa total? – resolvi optar pelo Coisas Que Ninguém Sabe, do Alessandro D’avenia. Já tinha lido um livro dele anos atrás, o Branca como leite, vermelho como sangue e sabia que encontraria muita, muita poesia.

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Ainda estou no primeiro capítulo, mas já estou completamente apaixonada. Não sei se é um dom italiano ou apenas um dom do Alessandro D’avenia mesmo, mas os textos dele parecem te abraçar. Ele é doce em tudo o que escreve. Nada é raso, bobinho ou mansinho demais. Cada parágrafo te pega pelo pé e te faz ler devagar e cada vez mais devagar. Não, não é chato. Mas é como se você quisesse absorver cada palavrinha, como se não quisesse deixar escapar nada do que está escrito ali.

E quando estava quase terminando o primeiro capítulo, encontro a frase “Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”. Voltei e li de novo. Suspirei. Ah, Alessandro! Como você é fofo, meu querido! Mesmo sem contexto essa frase já é especial, mas quando ela está associada a um professor que se recusa a ler apenas trechos da Odisseia de Homero para os seus alunos, um professor que prefere fugir do programa escolar para ler tudo ao longo de todo o ano com seus alunos, transforma a frase em algo ainda maior.

Fiquei pensando sobre isso. O mundo seria tão, tão melhor se as pessoas se entregassem por inteiro para aquilo que elas realmente gostariam de fazer. Seria tão lindo se todos os professores realmente amassem de coração suas profissões – e não só eles, mas também médicos, jornalistas, arquitetos, engenheiros e todas as outras -, pois dessa maneira todos passariam a realmente se doar para o mundo ao invés de viver esperando coisas em troca.

Um professor que pensa no seu aluno, que ama tanto uma obra literária, que conhece a importância daquele texto, ter a preocupação de esquecer todo o resto para trabalhar inteiramente o livro na sala de aula é de uma beleza sem fim. Fico pensando aqui no Brasil, nos clássicos. Se os livros deixassem de ser uma “tarefa” de levar para casa, ler e fazer prova e realmente virassem um objeto de estudo, discussão, seria muito melhor. Meu pai outro dia contou para a gente que a professora dele lia livros inteiros na sala de aula. Não lembro de nenhum professor que tenha feito esse tipo de coisa por aqui na minha época de escola. E olha que eu estudei em várias escolas diferentes!

Ler trechos, saber que nem metade dos alunos vão ter o trabalho de ler o livro recomendado e que a maioria vai buscar resumos e resenhas na internet, é de um deixar para lá gigantesco do professor e da escola. Como diz a frase de Alessandro D’avenia que abre esse post  “Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”. Histórias que poderiam acrescentar, construir, iluminar a vida dos alunos passam sem nem mesmo deixar marca nenhuma.

Ele continua “Queria que seus alunos penetrassem no mundo em que ele mesmo entrava todas as vezes em que lia a Odisseia; que sentissem o perfume áspero do mar, o odor acre do sangue, as lágrimas de uma mãe, o suor de um pai que volta para casa. Queria conduzi-los aonde só a literatura sabe nos levar: ao coração das coisas do mundo, quando foram fundadas e seu código se perdeu. E a arte é o código que torna visíveis as coisas que tocamos todos os dias, e que, justamente porque as tocamos demais, tornam-se opacas, corriqueiras, invisíveis. Queria transmitir tudo isso a jovens de 14 anos, ainda crianças no rosto e no coração, mas que, dali a cinco anos, se tornariam adultos: homens e mulheres. Tal como seu professor fizera, também queria lhes dar uma chance a mais de conseguirem ser eles mesmos”.

Se tudo fosse feito por amor, com paixão, as pessoas se entregariam mais, se doariam mais e o mundo seria um lugar melhor. Uma pena que a maioria das pessoas espera muito mais o que vai ganhar em troca do que o que realmente tem para dar e para mudar na vida de outro alguém.

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