04 de Dezembro de 2017

Relato do meu Parto Normal – O Parto

Mesmo com todas as contrações, fui ate o meu armário trocar de roupa. Peguei o primeiro vestido que vi pela frente – por que não deixei separado antes a roupa para ir para a maternidade? – e me troquei em segundos. Entre o viver o parto e o mundo real, lembro de ter perguntado diversas vezes para Vinicius – E agora? Como vai ser? -. Estava preocupada com a ida até o carro e depois com a chegada no hospital. Na minha cabeça, era tenso chegar gritando na maternidade. Imagina então no prédio! Risos. Nem imagino o que os vizinhos pensaram de tudo isso. Ainda não encontrei nenhum por aqui desde o meu grande dia.

Realmente não deu para segurar a onda. Quando as contrações vinham e a vontade de empurrar se tornava cada vez mais incontrolável, não tinha pudor que segurasse os gritos dentro de mim. Aquilo era muito maior que eu. Lembro que até entrar no carro eu não senti a contração, mas assim que sentei no banco de trás – seria impossível ir na frente. Eu precisava ficar de joelhos, não dava para ficar sentada – um daqueles gritos do fundo da alma saiu mais uma vez. Vergonha? Não dava nem tempo de pensar nisso.

Graças a Deus conseguimos uma vaga bem na frente da maternidade e assim que eu saí do carro, aquela preocupação do “e se eu chegar e tiver vontade de gritar?” virou realidade. Na porta do hospital veio uma das contrações mais fortes. Eu agachei, me agarrei no corrimão da escada e gritei. Não lembro exatamente de como tudo aconteceu, porque na minha cabeça as cenas acontecem em segundos, mas provavelmente levaram um tempo maior. Só lembro de levantar depois dessa contração, já sentar em uma cadeira de rodas, depois fui levada para uma sala com a obstetra plantonista e uma outra que tentava me acalmar. Nesse momento, as contrações eram ainda maiores e pareciam vir uma atrás da outra. Já não sentia mais tanta dor. A vontade de empurrar era maior do que qualquer outra coisa. E o meu corpo empurrava. Com força, com vontade, com suor e com grito.

Lembro de ser examinada mais uma vez e de sentar na cadeira de rodas para ir para a sala de parto humanizado. No elevador, mais um grito. Cheguei naquela sala que eu tanto sonhei conhecer. Minha obstetra querida – Priscila Pyrrho -, a pediatra da Julinha – Fernanda Catharino – e o enfermeiro obstetra – Rodrigo Lyra – já tinham deixado a sala como um ninho. A temperatura estava aconchegante, as luzes tinham sido apagadas e apenas umas luzes coloridas, bem fraquinhas, iluminavam o ambiente. As músicas que escolhemos começaram a tocar.

Eu tinha várias opções para escolher – banquinho de cócoras, umas barras na parede para segurar e agachar, piscina, chuveiro, maca, bola de pilates e um pano preso ao teto -, mas já tinha me sentido segura e confortável com o apoio de Vinicius. Por isso, escolhi a bola de pilates e as mãos do Vi como apoio naquele momento.

Não lembro exatamente bem, mas acho que foram poucas contrações antes de ser examinada pela minha médica. Mas se eu não lembro quanto tempo levei na sala de parto antes daquele novo exame, nunca mais eu vou esquecer daquele instante. Deitei na maca, ela fez o toque, olhou bem nos meus olhos com um sorriso enorme e falou: Você está com dilatação total. Julinha está pronta.

Tive vontade de abraçar a Priscila. Senti uma das maiores emoções da minha vida. Eu realmente estava conseguindo. Eu realmente estava parindo. Eu realmente deixei meus medos de sentir dor e me entreguei para aquela grande mudança, para a minha transformação de filha para mãe.

Sentei no banquinho de cócoras e ali começou a fase mais complicada – para mim – de todo o trabalho de parto. As contrações já não doíam mais nada. Elas eram apenas uma vontade ainda mais gigantesca de empurrar. Quando elas vinham, a única coisa que eu sentia era vontade de fazer força. Não demorou muito até a minha bolsa estourar. O Rodrigo seguia monitorando o coração da Julia e todos eles me davam força, palavras de incentivo e avisavam a cada nova contração que a Julia estava mais perto.

Por algum motivo inexplicável, naquele momento eu travei, quase entrei em pânico, cheguei a pedir cesária. Não era por causa da dor. Foi realmente um medo enorme. Medo de machucar a Julia, medo de não dar conta, medo de acontecer alguma coisa com ela no momento da saída.

A equipe que escolhi para trazer a Julia ao mundo junto comigo foi muito importante naquele momento de crise. Eles me acalmaram, conversaram e disseram que o pior já havia passado. A Julia só precisava da minha força para conseguir sair. Mas na minha cabeça, o pânico tomou conta e eu tive certeza que não daria certo. Tive pavor de ouvir o coração da Julinha fraco no sonar. Pensei em todos aqueles “avisos” de amigos e conhecidos dizendo que cesariana era muito melhor, pois era a medicina avançada e morri de medo de dar alguma coisa errado e de me sentir eternamente culpada pela escolha que fiz.

“Tem alguma coisa errada?” – lembro de perguntar várias vezes.

Minha equipe dizia que não. Estava tudo bem, lindo e no final. Só precisava de força.

Vinicius me abraçava, sentado atrás de mim. Falava no meu ouvido que já tinha dado tudo certo. Só precisava empurrar e a Julinha estava chegando. Mas eu estava travada.

“Em todos os vídeos de parto normal que vi na internet, quando a dilatação total acontecia, os nenéns saíam em segundos” – falei enquanto chorava de pavor.

“Internet mostra tudo editado. Algumas pessoas conseguem rápido e outras não. Está tudo bem. Relaxa, pois a Julinha está aqui. Se você colocar a sua mão aqui, vai sentir a cabeça dela” – explicou a pediatra.

Cheia de medo, coloquei a mão e realmente senti a cabecinha da Julia muito perto. Só dependia de mim. Eu só precisava empurrar. Mas não conseguia. Quando a contração vinha, eu simplesmente travava.

Minha médica disse que se eu quisesse, ela poderia me ajudar com uma ventosa que ela colocaria na cabeça da Julia para me ajudar a puxar quando a contração viesse. Estava com tanto medo que sabia que precisava daquela intervenção. Eu não seria menos mãe com aquela ajuda. E foi assim, que depois de um expulsivo de duas horas e meia, depois de mais uma contração eu ouvi a voz de Vinicius atrás de mim – A Julia está saindo, a cabeça dela está aqui. Meu coração acelerou e eu tirei força da onde nem tinha mais para fazer força mais uma vez e foi naquele instante que eu vivi o momento mais emocionante, fascinante e indescritível da minha vida – A Julinha nos meus braços.

“Eu consegui!! Nós conseguimos!!!!” – Foram as primeiras palavras que saíram da minha boca.

Julinha chorou por poucos segundos, mas ao ouvir a minha voz, aqueles olhinhos escuros, grandes e cheios de expressão olharam para mim. Ela ouviu a minha voz e me reconheceu. Vinicius totalmente emocionado também começou a falar e ela olhou direto na direção dele. Mais uma voz ganhando rosto nos primeiros segundos de vida da minha pequena.

Quando o cordão umbilical parou de pulsar, Vinicius foi o responsável por cortar. Quanta emoção!! Ainda suja de sangue, direto da minha barriga para os meus braços, Julinha já começou a sentir meu cheiro e a procurar o meu peito. A natureza realmente é muito, muito  perfeita! A Fernanda – pediatra – pegou ela por apenas alguns minutinhos para fazer os primeiros exames e para “limpar” um pouco a Julia. Tudo bem ao meu lado. Julinha não foi para o berçário, não ficou aos prantos, sozinha, como sempre vi os bebês ficando no dia do nascimento. Ela não saiu do nosso lado e em poucos minutos estava de volta ao meu colo para a primeira amamentação.

Parecia que tanto eu quanto ela tínhamos feito aquilo a vida inteira. Ela achou o meu seio em segundos e já começou a mamar com força total. Eu segurei a minha filha como se amamentar fosse algo que eu fizesse naturalmente. Nossa conexão foi realmente imediata. Eu amei a Julia no primeiro segundo. E descobri que não existe nada comparado a isso assim que aqueles olhinhos encontraram os meus, segundos depois dela sair da minha barriga.

Não tenho nem palavras para agradecer aos profissionais que escolhi para me acompanhar no momento mais importante da minha vida. Uma equipe que me deu segurança durante toda a gestação, que me ensinou muito sobre coisas que eu nem imaginava e que tratou o meu parto, a Julinha e tanto eu quanto o Vi com o maior respeito e carinho do mundo. Queria que todas as gestantes pudessem ser acompanhadas por pessoas como eles. Nunca vou esquecer de como eles deixaram que Vinicius e eu vivêssemos aquelas contrações juntos, sem interferência nenhuma. De como eles se mostravam presentes para me dar segurança, mas ao mesmo tempo faziam com que a presença deles fosse quase invisível. Uma equipe incrível, que eu queria guardar em um potinho e levar para casa, para ter sempre por perto. Muito além de profissionais competentes, eles realmente se importam com o melhor para mamãe e bebê. Seremos eternamente gratos aos três.

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30 de Novembro de 2017

Relato do meu Parto Normal – O Trabalho de Parto

Assim que voltamos para casa, entrei em um novo estágio do trabalho de parto. As contrações começaram a ficar muito doloridas e foi como se eu estivesse entrando em uma transformação total. Uma espécie de divisor de águas – quem eu fui até aquele momento e quem eu passaria a ser a partir dali. Naquele momento não havia espaço para nada além de mim e da Julia. Preocupações, medos, pudores, o que quer que fosse estava me dando adeus.

Entrei correndo no chuveiro, liguei a água bem quente e coloquei uma cadeira bem embaixo da ducha. A dor aliviava um pouco e eu tentava relaxar. Na minha cabeça só vinha o sorriso da minha médica e a voz dela falando “você já está com quase 4 centímetros”. E então, mesmo com a contração vindo e dando a sensação de esmagar as minhas costas, minhas pernas e a minha barriga, eu sorria.

Foi só sair do banheiro para que eu perdesse totalmente a noção de tempo, espaço e de tudo mais. É incrível como a natureza e o nosso instinto agem nesses momentos. Nenhum livro, blog, relato ou coisa do tipo é capaz de descrever exatamente o que acontece no momento do trabalho de parto. Por mais textos que eu tivesse lido, nenhum me deixou “preparada” para aquilo que vivi.

O parto normal, o trabalho de parto, não é algo que a gente possa se preparar – pelo menos no meu caso, na minha experiência foi assim. Segui totalmente o meu instinto, a minha natureza, o que o meu corpo me mandava fazer.

Saí do banheiro e as contrações começaram a vir uma seguida da outra. Parecia não dar nem tempo de respirar ao final de uma que outra logo começava. Falando assim, parece que é a pior dor do mundo, mas não é isso. Dói. Claro que dói. Mas é uma dor diferente. Não é aquela dor ruim de uma doença. Como falei ontem, é dor de vida, dor de transformação. Acredito que deva ser algo  como uma lagarta virando borboleta. Toda grande transformação dói. É necessária para que nosso corpo e nosso ser estejam preparados para toda uma vida nova.

Então, seguindo meus instintos, não pensei no que faria, em como me comportaria, no que faria quando doesse mais. Estava ali, vivendo aquela metamorfose com toda a minha alma. O enfermeiro já tinha chegado e foi transformando a minha casa em uma espécie de ninho. Não prestei atenção em nada que estava acontecendo ao meu redor. Agarrei um almofadão que deixei no sofá e pedi que Vinicius apertasse as laterais das minhas pernas, pois tinha percebido que quando a contração vinha, aquela pressão aliviava a dor. O enfermeiro – que foi um anjo para a gente – me ajudou com massagens, aromas que acalmavam e também com essas pressões em pontos específicos que aliviavam muito as  contrações.

Poucos minutos depois as contrações mudaram e passaram a ser de um jeito que eu não estava esperando. Não dá para descrever muito bem a sensação, mas não era exatamente de dor. O que eu sentia era o meu corpo funcionar alucinadamente. Não dava tempo de pensar. A contração vinha e eu sentia uma vontade absurda de empurrar. Não sabia bem o que empurrar nem como fazer aquilo, mas o corpo parecia saber. E foi a partir dali que um grito que nunca imaginei que fosse dar, passou a se formar dentro de mim e sair da maneira mais primitiva da minha boca. Não dava para não gritar, assim como não dava para não empurrar. Era o meu corpo que mandava em mim. Era a minha transformação de lagarta a borboleta.

Vinicius foi muito, muito importante naquele instante. Fomos mais uma vez para o chuveiro, dessa vez com uma bola de pilates.  Ficamos no escuro, com as músicas que escolhemos para o parto tocando bem baixinho e com a água quente caindo direto nas minhas costas. Vinicius me deu as mãos e eu continuei seguindo o que o meu corpo mandava.

Não é romântico, não é nada que deva ser idealizado. É realmente uma transformação, algo visceral. Apesar das músicas, do marido ao lado, da expectativa do que vai acontecer… É suor, gritos, sangue, choro… Muito mais fisiológico do que bonito. O parto normal não é bonito por ser belo, mas por ser transformador.

Depois de sair do chuveiro, pedi para que o enfermeiro visse com quanto eu estava de dilatação. Apesar de não ter passado muito tempo, senti que o momento estava se aproximando. Ele me examinou e disse baixinho: Vamos para o hospital agora, pois você está com oito centímetros e falta muito pouco.

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Continua…

 

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