04 de Dezembro de 2016

Professor, não responda mais PORQUE SIM.

Professor, posso te pedir um favor? Nunca mais responda a um aluno com um Porque Sim. Sei que algumas perguntas são muito chatas, repetitivas e até mesmo com cara de provocação. Já fui aluna e sei o quanto somos irritantes quando queremos ser. Também sei que nem sempre a sua profissão é valorizada, também sou contra o salário que recebem. Afinal, se não fosse por vocês, professores, não existiriam os médicos, advogados, jornalistas, psicólogos e por aí vai. Vocês tinham que receber o maior salário de todos. Pelo menos na minha opinião.

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Mas sabe, professor, quando você responde com um porque sim, o seu aluno vai entender a sua mensagem – que é você quem manda. Ok. Mas essa resposta vai provocar um mal ainda maior: frustração, falta de interesse e até mesmo um sentimento nele de que estudar a sua matéria é pura perda de tempo.

Lembro que diversas vezes, nas escolas que passei – e posso dizer que até mesmo na faculdade -, ouvi alunos perguntando e também fiz essa mesma pergunta – Por que tenho que estudar isso? O que essa matéria vai me acrescentar? O que saber isso vai fazer diferença na minha vida?

Na maioria das vezes o porque sim foi a resposta que veio do outro lado. Imagino que seja um instinto natural, um mecanismo de defesa de alguns professores, que já guarda esse porque sim na ponta da língua. Afinal, quem gostaria de ter questionada a importância da sua função ou daquilo que você amou estudar e depois ensinar?

Estava lendo um livro que o autor conta que na alfabetização perguntou para a professora: Por que eu tenho que aprender a ler e escrever? E ela respondeu o famoso Porque Sim. Ele conta que mesmo tão pequeno, aquilo foi tão marcante e ele se sentiu tão frustrado de ter que aprender alguma coisa apenas porque o outro queria que ele fizesse aquilo, que ele cresceu odiando os livros, os professores e a escola.

Penso que se cada vez que eu ou algum dos meus amigos fez a pergunta, um professor tivesse respondido com o coração, hoje eu seria uma pessoa e profissional muito mais completa.

Sempre odiei a matemática e desde nova sabia que faria humanas – ou psicologia, publicidade ou jornalismo -. Lembro que depois de me dar mal na matéria perguntei ao professor o que aquilo acrescentaria na minha vida, na minha futura profissão. por que eu tinha que estudar aquela matéria tão chata? E lá veio o porque sim.

Pensando hoje sobre isso e acredito que se ele falasse que mais importante do que a profissão, a matemática poderia ser algo que me deixaria mais esperta na hora de entender aplicações e investimentos, que eu saberia ler e entender sobre economia, que para diversas situações na vida a matemática seria muito importante para mim, talvez, naquele momento, eu não desse tanta importância a tudo aquilo. Mas com toda a certeza do mundo, ficaria muito mais na minha cabeça como um conselho e um aviso de que aquilo seria importante para mim de alguma maneira, do que achar que estudar era um simples sinal de obediência. E o mesmo vale para história, geografia, física, química e por aí vai.

Todas as matérias são importantes não só para a profissão futura, mas para toda a vida. Hoje, sinto muita falta de não ter dado mais atenção a todas as matérias que eu pensava que não me seriam úteis nunca mais. Se eu entendesse mais de matemática, aproveitaria muito melhor os investimentos de juros compostos, mas quando alguém começa a me falar sobre eles, a minha cabeça dá um nó. E sim, posso ser facilmente enganada por algum corretor de banco querendo vender uma aplicação que nem seria tão boa para mim. E aí, tenho que pedir ajuda ao meu marido ou meu pai.

Uma vez fui dar palestra em uma escola e a professora falou: Não tem que dar livros para esses garotos, eles precisam é de rodo e pano de chão. Foi um choque para mim naquele momento. Sei que na maioria das vezes não deve ser fácil ser um professor. Mas quem escolheu essa profissão, é porque antes de todo o cansaço da rotina do trabalho e de tanta desvalorização para uma das profissões mais lindas do mundo, já existiu aquela paixão enorme e uma grande vontade de mudar o mundo de alguma maneira com suas palavras e seus ensinamentos. E vocês realmente podem mudar. Vocês podem transformar pessoas.

Por esse motivo, professor, peço que apesar de tudo, antes de responder um porque sim, você pense que respirar fundo e responder do fundo do coração de que maneira a sua matéria será boa para aquela pessoa, mesmo que ela não tenha identificação nenhuma com ela, pode mudar o futuro de muitos daqueles alunos que estão passando por você.

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25 de Outubro de 2016

“Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”

E aí eu decido aproveitar o domingão para tirar da minha estante algum livro que eu tenho há muito tempo, mas que ainda não tenha começado a ler. Olhei, olhei, olhei e depois de muito pensar – mais engraçadinho, mais teen, uma surpresa total? – resolvi optar pelo Coisas Que Ninguém Sabe, do Alessandro D’avenia. Já tinha lido um livro dele anos atrás, o Branca como leite, vermelho como sangue e sabia que encontraria muita, muita poesia.

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Ainda estou no primeiro capítulo, mas já estou completamente apaixonada. Não sei se é um dom italiano ou apenas um dom do Alessandro D’avenia mesmo, mas os textos dele parecem te abraçar. Ele é doce em tudo o que escreve. Nada é raso, bobinho ou mansinho demais. Cada parágrafo te pega pelo pé e te faz ler devagar e cada vez mais devagar. Não, não é chato. Mas é como se você quisesse absorver cada palavrinha, como se não quisesse deixar escapar nada do que está escrito ali.

E quando estava quase terminando o primeiro capítulo, encontro a frase “Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”. Voltei e li de novo. Suspirei. Ah, Alessandro! Como você é fofo, meu querido! Mesmo sem contexto essa frase já é especial, mas quando ela está associada a um professor que se recusa a ler apenas trechos da Odisseia de Homero para os seus alunos, um professor que prefere fugir do programa escolar para ler tudo ao longo de todo o ano com seus alunos, transforma a frase em algo ainda maior.

Fiquei pensando sobre isso. O mundo seria tão, tão melhor se as pessoas se entregassem por inteiro para aquilo que elas realmente gostariam de fazer. Seria tão lindo se todos os professores realmente amassem de coração suas profissões – e não só eles, mas também médicos, jornalistas, arquitetos, engenheiros e todas as outras -, pois dessa maneira todos passariam a realmente se doar para o mundo ao invés de viver esperando coisas em troca.

Um professor que pensa no seu aluno, que ama tanto uma obra literária, que conhece a importância daquele texto, ter a preocupação de esquecer todo o resto para trabalhar inteiramente o livro na sala de aula é de uma beleza sem fim. Fico pensando aqui no Brasil, nos clássicos. Se os livros deixassem de ser uma “tarefa” de levar para casa, ler e fazer prova e realmente virassem um objeto de estudo, discussão, seria muito melhor. Meu pai outro dia contou para a gente que a professora dele lia livros inteiros na sala de aula. Não lembro de nenhum professor que tenha feito esse tipo de coisa por aqui na minha época de escola. E olha que eu estudei em várias escolas diferentes!

Ler trechos, saber que nem metade dos alunos vão ter o trabalho de ler o livro recomendado e que a maioria vai buscar resumos e resenhas na internet, é de um deixar para lá gigantesco do professor e da escola. Como diz a frase de Alessandro D’avenia que abre esse post  “Nada nem ninguém reduzido a fragmentos tem o perfume da vida”. Histórias que poderiam acrescentar, construir, iluminar a vida dos alunos passam sem nem mesmo deixar marca nenhuma.

Ele continua “Queria que seus alunos penetrassem no mundo em que ele mesmo entrava todas as vezes em que lia a Odisseia; que sentissem o perfume áspero do mar, o odor acre do sangue, as lágrimas de uma mãe, o suor de um pai que volta para casa. Queria conduzi-los aonde só a literatura sabe nos levar: ao coração das coisas do mundo, quando foram fundadas e seu código se perdeu. E a arte é o código que torna visíveis as coisas que tocamos todos os dias, e que, justamente porque as tocamos demais, tornam-se opacas, corriqueiras, invisíveis. Queria transmitir tudo isso a jovens de 14 anos, ainda crianças no rosto e no coração, mas que, dali a cinco anos, se tornariam adultos: homens e mulheres. Tal como seu professor fizera, também queria lhes dar uma chance a mais de conseguirem ser eles mesmos”.

Se tudo fosse feito por amor, com paixão, as pessoas se entregariam mais, se doariam mais e o mundo seria um lugar melhor. Uma pena que a maioria das pessoas espera muito mais o que vai ganhar em troca do que o que realmente tem para dar e para mudar na vida de outro alguém.

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