12 de Maio de 2017

O que aprendi com – Palavras Para Desatar Nós – de Rubem Alves





Palavras para Desatar Nós é mais uma obra prima de Rubem Alves. Já tinha me apaixonado por ele quando li “Se Pudesse Viver a Minha Vida Novamente” e agora, tenho vontade de ler todos os outros livros que foram publicados por Rubem Alves.

Ele é um autor que fala direto com o nosso coração, a nossa alma. Alguns pensamentos, ideias, palavras… Vão lá no fundo da nossa alma. É um livro para ser degustado, sentido, apreciado. Em um mundo tão cheio de ódio como o que vivemos hoje, recomendo muito Rubem Alves para todos.

O que aprendi com Palavras para Desatar Nós

“Um psicanalista é uma pessoa que tenta ajudar as pessoas a se transformarem pelo uso da palavra. A palavra tem poderes mágicos”

“Há sonhos que são ilusões e nos levam por caminhos errados e se transformam em pesadelos”

“O poder das palavras não está nelas mesmas. Está no jeito como as lemos”

“Um mesmo livro pode ser lido como o barulho de uma serra ou como o som de uma canção”

“Textos de fazer pensar são alimento para a inteligência. É preciso lê-los como quem come: devagar, ruminando, para que a inteligência tenha tempo de mastigá-los e digeri-los”

“A beleza tem um efeito embriagante. Quando a alma é tocada por ela, a cabeça não faz perguntas. Tudo é êxtase, encantamento”

“A beleza sempre nasce de feridas. As feridas a produzem para que a sua dor seja suportável”

“A paixão só se contenta com o eterno”

“Deus é como o ar. Quando a gente está em boas relações com ele, não é preciso falar. Mas quando a gente está atacado de asma, então é preciso ficar gritando por Deus. Do jeito como o asmático invoca o ar. Quem fala com Deus o tempo todo é asmático espiritual. E é por isso que andam sempre com Deus engarrafado em Bíblia e outros livros e coisas de função parecida. Só que o vento não pode ser engarrafado…”

“Não acredito em oração em que a gente fala e Deus escuta. Acredito mesmo é na oração em que a gente fica quieto para ouvir a voz que se faz ouvir no meio do silêncio”

“Falamos para transformar a ausência em presença”

“Há músicas que contêm memórias de momentos vividos. Trazem-nos de volta um passado. Lembramo-nos de lugares, objetos, rostos, gestos, sentimentos… Lembrar-se do passado é triste-alegre… Alegre porque houve beleza de que nos lembramos. Triste porque a beleza é apenas lembrança… Não existe mais. Mas há músicas que nos fazem retornar a um passado que nunca aconteceu. É uma saudade indefinível, sentimento puro, sem conteúdo. Não nos lembramos de nada. Apenas sentimos. Sentimos a presença de uma ausência…”

“Você nunca sentiu isto, uma saudade indefinível de um lugar encantado em que nunca esteve?”

“A música tem virtudes médicas. Cura”

“Bom seria se a música clássica se ouvisse nos consultórios médicos, nas escolas, nas fábricas, nos escritórios, nas rádios. Há cidades que têm essa felicidade: rádios FM que tocam música clássica o dia inteiro. A música clássica desperta, nas pessoas, aquilo que elas têm de melhor e de mais bonito. Música clássica contribui para a cidadania”

“O prazer só existe no momento. Já a alegria, basta a lembrança para que ela volte. O prazer é único, não se repete. Aquele que foi já foi. Outro será outro. Mas a alegria se repete sempre. Basta lembrar”

“Por isso que Nietzsche dizia que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. Quem sabe ver está sempre viajando – mesmo que não saia de casa. Mas quem não sabe ver não viaja mesmo que vá para a China”

“Otimismo é quando, sendo primavera do lado de fora, nasce a primavera do lado de dentro. Esperança é quando, sendo seca absoluta do lado de fora, continuam as fontes a borbulhar dentro do coração”

“As maiores atrocidades da história da humanidade, religiosas e políticas, foram cometidas por pessoas que não tinham dúvidas sobre a verdade dos seus pensamentos. As pessoas que duvidam, ao contrário, são tolerantes. Sabem que o que pensam não é a verdade. Seus pensamentos não passam de “palpites”. Por isso ouvem o que os outros têm a dizer, pois pode ser que a verdade esteja com eles…”

“Num país de fugitivos aquele que anda na direção contrária parece estar fugindo” T.S. Eliot citado por Rubem Alves em Palavras Para Desatar Nós

“Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você” Sartre citado por Rubem Alves em Palavras Para Desatar Nós

“Não vemos o que vemos; vemos o que somos” Bernardo Soares citado por Rubem Alves em Palavras Para Desatar Nós

“O que escrevo não é o que tenho; é o que me falta”

“A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que ela provou e aprovou”

“Dor e infelicidade são coisas diferentes. Há dores que são felizes”

É claro que existem muitas outras frases e pensamentos marcantes em Palavras para Desatar Nós, mas eu selecionei para vocês aquelas que mais mexeram comigo. Se quiserem conferir, não resisti e uma das crônicas eu precisei colocar inteira por aqui. É aquele tipo de história que precisamos ler e pensar sobre ela, sabe? Leiam Rubem Alves e se encantem. O mundo está precisando disso.

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05 de Maio de 2017

Variação sobre um Tema Antigo – Rubem Alves

Depois de ler “Variação sobre um tema antigo” de Rubem Alves não resisti. Precisava trazer essa crônica completa para vocês. Acho que é a primeira vez que faço isso aqui no blog. Normalmente, pego citações que mais gosto e coloco na coluna Entre Aspas, para dividir com vocês tudo o que aprendi nos livros que li.  Rubem Alves tem o dom de tocar fundo na minha alma e cada um de seus textos vão me enchendo de uma coisa boa, gostosa.

Essa crônica em especial “Variações de um tema antigo” é algo que eu acho que todo mundo precisa ler e guardar para si. Muitas vezes desejamos tanto que não vamos percebendo as coisas que conquistamos ao longo do caminho e passamos a desejar cada vez mais. Conquistamos e aquilo já não nos serve. Queremos o pedaço maior, a coisa mais bonita e por aí vai… Confiram:

“Era uma vez um pobre pescador e sua mulher. Eram pobres, muito pobres. Moravam numa choupana à beira-mar, num lugar solitário. Viviam dos poucos peixes que ele pescava. Poucos porque, de tão pobre que era, ele não possuía um barco: não podia aventurar-se ao mar alto, onde estão os grandes cardumes. Tinha de se contentar com os peixes que apanhava com os anzóis ou com as redes lançadas no raso. Sua choupana, de pau-a-pique, era coberta com folhas de palmeira.

Quando chovia, a água caía dentro da casa e os dois tinham de ficar encolhidos, agachados, num canto. Não tinham razões para ser felizes. Mas, a despeito de tudo, tinham momentos de felicidade. Era quando começavam a falar sobre os seus sonhos. Algum dia ele teria sorte, teria uma grande pescaria, ou encontraria um tesouro – e então teriam uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, um canário na gaiola e galinhas no quintal. Mas eles sabiam que a casinha branca não passava de um sonho. Por vezes a felicidade se faz com sonhos impossíveis. E assim, sonhando com a impossível casinha branca, eles faziam amor e dormiam abraçados.

Era um dia comum como todos os outros. O pescador saiu muito cedo com seus anzóis para pescar. O mar estava tranqüilo, muito azul. O céu limpo, a brisa fresca. De cima de uma pedra lançou o seu anzol. Sentiu o tranco forte, peixe preso no anzol. Lutou. Puxou. Tirou o peixe. Escamas de prata com barbatanas de ouro. Foi então que o espanto aconteceu. O peixe falou. “Pescador, eu sou um peixe mágico. Devolva-me ao mar que realizarei o seu maior desejo”. O pescador resolveu arriscar. Um peixe que fala deve ser digno de confiança. “Eu e minha mulher temos um sonho”, disse o pescador. “Sonhamos com uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, galinhas no quintal, canário na gaiola. E mais, roupa nova para minha mulher”. Ditas essas palavras ele lançou o peixe de novo ao mar e voltou para casa, para ver se o prometido acontecera. De longe, no lugar da choupana antiga, ele viu uma casinha branca e, à frente dela, a sua mulher com um vestido novo – tão linda! Começou a correr, e enquanto corria pensava: “Finalmente nosso sonho vai se realizar! Finalmente vamos ser felizes!”

Foi um abraço de felicidade. A felicidade dela era completa. Mas não estava entendendo nada. Queria explicações. E ele então lhe contou do peixe mágico. “Ele disse que eu poderia pedir o que quisesse.” Houve um momento de silêncio. O rosto da mulher se alterou. Cessou o riso. Ficou sério. Ela olhou para o marido e, pela primeira vez, ele lhe pareceu imensamente tolo: “Você poderia ter pedido o que quisesse? E por que não pediu uma casa maior, mais bonita, com varanda, três quartos e dois banheiros? Volte. Chame o peixe. Diga-lhe que você mudou de idéia.” O marido sentiu a repreensão, sentiu-se envergonhado. Obedeceu. Voltou. O mar já não estava tão calmo, tão azul. Soprava um vento mais forte. Gritou: “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: o que é que você deseja?

O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido uma casa maior, com varanda, três quartos e dois banheiros!” O peixe lhe disse: “Pode ir. O desejo dela já foi atendido.” De longe o pescador viu a casa nova, grande, do jeito mesmo como a mulher pedira. “Agora ela está feliz”, ele pensou. Mas ao chegar a casa o que ele viu não foi um rosto sorridente. Foi um rosto transtornado. “Tolo, mil vezes tolo! De que me vale esta casa neste lugar ermo, onde ninguém a vê? O que eu desejo é um palacete no bairro elegante de uma cidade, dois andares, banheiros de mármore, escadarias, fontes, piscina.

VoIte! Diga ao peixe desse novo desejo!”

O pescador, obediente, voltou. O mar estava cinzento e agitado. Gritou: “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: “O que é que você deseja?” O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palacete num bairro rico da cidade”. Antes que ele terminasse, o peixe disse: “Pode voltar. O desejo dela já está satisfeito.” Depois de muito andar – agora ele já não morava perto da praia, ele chegou à cidade e viu, num bairro rico, um palacete tal e qual aquele que sua mulher desejava. “Que bom”, ele pensou. “Agora, com seu desejo satisfeito, ela deve estar feliz, mexendo nas coisas da casa.” Mas ela não estava mexendo nas coisas da casa. Estava na janela. Olhava o palacete vizinho, muito maior e mais bonito que o seu, do homem mais rico da cidade. O seu rosto estava transtornado de raiva, os seus olhos injetados de inveja.

“Homem, o peixe disse que você poderia pedir o que quisesse. Volte. Diga-lhe que eu desejo um palácio de rainha, com salões de baile, salões de banquete, parques, lagos, cavalariças, criados, capela.”

O marido obedeceu. Voltou. O vento soprava sinistro sobre o mar cor de chumbo. “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: “O que é que você deseja?” O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palácio com salões de baile, de banquete, parques, lagos… “Volte!”, disse o peixe antes que ele terminasse. “O desejo de sua mulher já está satisfeito.”

Era magnífico o palácio. Mais bonito do que tudo aquilo que ele jamais imaginara. Torres, bosques, gramados, jardins, lagos, fontes, criados, cavalos, cães de raça, salões ricamente decorados … Ele pensou: “Agora ela tem de estar satisfeita. Ela não pode pedir nada mais rico.”

O céu estava coberto de nuvens e chovia. A mulher, de uma das janelas, observava o reino vizinho, ao longe. O céu estava azul. Fazia sol. Ao longe se viam as pessoas alegremente passeando pelo campo.

“De que me serve este palácio se não posso gozá-Io por causa da chuva? Volte, diga ao peixe que eu quero ter o poder dos deuses para decretar que haja sol ou haja chuva!”

O homem, amedrontado, voltou. O mar estava furioso. Suas ondas se espatifavam no rochedo. “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” – ele gritou. O peixe apareceu. “Que é que sua mulher deseja?”, ele perguntou. O pescador respondeu: “Ela deseja ter o poder para decretar que haja sol ou haja chuva!”

O peixe falou: “Vou lhes dar uma coisa melhor: vou lhes dar a felicidade!” O homem riu de alegria. “É isso que eu mais quero”, ele disse. “Volte”, disse o peixe. “Vá ao lugar da sua primeira casa. Lá você encontrará a felicidade”. E, com essas palavras, desapareceu. O pescador voltou. De longe viu a sua casinha antiga, a mesma casinha. Viu sua mulher, com o mesmo vestido velho. Ela colhia verduras na horta. Quando ela o viu, veio correndo ao seu encontro. “Que bom que você voltou mais cedo”, ela disse com um sorriso. “Sabe? Vou fazer uma salada e sopa de ostras, daquelas que você gosta. E enquanto comemos, vamos falar sobre a casinha branca com janelas azuis”. Ditas essas palavras ela segurou a mão do pescador enquanto caminhavam, e eles foram felizes para sempre”.

Perceberam? É uma crônica para pensar, refletir e guardar sempre com carinho. Acho que devemos agradecer por tudo o que conquistamos ao invés de viver pedindo sempre mais e mais. Bom final de semana para todos vocês.

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