17 de Março de 2017

Que saudade da cidade que Niterói já foi um dia

Ah, Niterói! Será que essa geração e a do futuro vão acreditar em como você já foi maravilhosa um dia? A cidade sorriso, a Niterói de quem tinha orgulho de morar por aqui. Lembro que quando era adolescente, enchia a boca para dizer “não saio de Niterói por nada. Morar no Rio? Impossível. Em Niterói eu faço tudo a pé e na minha cidade tem tudo que eu preciso”. E como tinha!

É claro que algumas coisas não mudam. Continuamos com a melhor vista do Rio, uma das praias mais lindas do Brasil…  Mas a diferença é que há alguns anos, a gente realmente podia aproveitar tudo o que a nossa cidade tem de bom. Agora, a preocupação é grande. Não dá para andar na praia com a mesma segurança do passado, pois até lá virou point de assaltos. Que tristeza!

 

Essa nova geração nunca vai saber o que era voltar a qualquer hora da madrugada de uma noitada e encontrar o Ponto Jovem aberto, com italianos que tinham acabado de sair do forno. A garotada nunca vai entender o que a gente queria dizer quando enchíamos a boca para falar que “Niterói tem três pessoas” – eu, você e alguém que a gente conhece. A cidade que era “pequena”, destruiu casas e construiu prédios de 15, 16 andares, com cinco apartamentos em cada um deles.

A gente saía na rua sem medo. Voltávamos da escola sozinhos, sem nenhum tipo de preocupação. Até mendigo era amigo da galera – quem não lembra do Tá Ligado?. A gente também tinha cinema. Não precisávamos ir até o Plaza para ver um filme. Tinha o cinema Icaraí, o Cine Center, o Estação Icaraí e o Windsor. Nos finais de semana, rolava aquela figuração básica no Saco de São Francisco. E também o que não faltavam eram boates – só em São Francisco e Charitas tinham três: Madame Kaos, Bedrock e Barthô.

Na época do Mirc, a sala (acho que não era esse o nome, mas vocês entenderam, né?) de Niterói vivia cheia de gente conversando sobre coisas legais. Hoje, no Facebook, tem o Niterói Alerta e o Plantão de Notícias de Niterói. Dois grupos que os moradores a cada minuto compartilham sobre assaltos, violência, problemas da nossa cidade. Niterói vive com medo. Não tem mais hora para ser perigosa. Os riscos começam às seis da manhã, tem assaltos também às seis da tarde, tiroteio às dez da noite e a qualquer hora do dia. Como alguém pode viver tranquilo assim?

Hoje, nem mesmo os barzinhos ficam abertos até tarde. Parece que vivemos com toque de recolher. Acabou a boemia, acabou a segurança, acabou a paz. O Campo de São Bento tem hora para fechar os portões e não é tarde não. Antes das nove, você já não consegue passar por ele. E o Parque da Cidade? Acabou o pôr do sol, é melhor você sair logo de lá. Há quem diga que até durante o dia não é 100% seguro passear naquele lugar que é tão bonito.

Estamos vivendo cada vez mais trancados. Não sabemos mais os nomes dos nossos vizinhos, dos donos dos comércios e dos mendigos. Voltamos para casa cada vez mais cedo e andamos nas ruas sempre em estado de alerta. Não conseguimos mais encher a boca ao falar de Niterói. E quando dizemos que somos daqui, muitas pessoas perguntam “a violência lá tá feia, né?”.

Pois é. Niterói não é mais aquele motivo de orgulho de antigamente. Se antes éramos a cidade sorriso, hoje somos a cidade do medo, da apreensão. Sorrir? De quê? Niterói não tem mais só três pessoas, não tem mais o que fazer pelo meio da madrugada, não tem mais italiano na volta da noitada e nem noitada tem também.

Se antes eu ficava brava quando ouvia a piada sobre a estátua de Arariboia, hoje eu acho que ela poderia ser adaptada e se transformar em uma grande verdade. Não conhece? É assim: Você sabe por que Arariboia está de costas para Niterói? Para ele não ver a M que fez. Mas na verdade, acho que tinha que ser: Para ele não ver a M que fizeram com ela.



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12 de Março de 2017

Viagem – A volta para casa

Antigamente, lembro que assim como amava fazer uma viagem, também adorava a volta para casa. Não importa o tempo que ficava fora, quando chegava o dia de voltar, ficava feliz de saber que voltaria para a minha casinha, meus amigos, minha rotina já tão conhecida por mim. Mas confesso que de uns tempos para cá essa sensação mudou.

É claro que ainda sinto falta da minha casa e fico feliz de poder voltar para ela. Meu sofá, minha cama, meus lugares favoritos no cantinho que arrumamos com tanto carinho. E, é claro, a Valentina! Quando precisamos deixar com a minha mãe – como foi o caso nesse final de semana -, vou chorando e volto completamente louca de vontade de dar um abraço apertado nela.

Sinto uma  mistura de sensações na hora de voltar para casa. O que é meu continua me enchendo de saudades, mas ao chegar ao Rio, meu coração aperta e eu começo a me sentir em estado de alerta. Fico com medo da moto que está próxima ao carro. Se o trânsito começa a ficar mais lento, sinto todo o meu corpo ficar tenso. O que está acontecendo? Também me entristeço com a falta de educação no trânsito e na vida. É só chegar ao Rio para que tudo isso aconteça.

E aí, quando a gente chega na ponte dá aquele alívio “estamos quase em casa”, mas a sensação de sempre alerta continua pelas ruas de Niterói. As notícias de assalto são diárias e parece que precisamos nos acostumar a isso.

Quem se acostuma com a violência?

O voltar para casa não é mais uma coisa alegre. A cada novo destino eu fico com aquela sensação de – “ah, como eu queria morar aqui”. Sabe? É tão bom quando podemos sair na rua sem ficar naquele estado de tensão, sem desconfiar da moto ou do carro ao lado do seu. Poder voltar a caminhar com uma bolsa – ando reparando que as  mulheres quase não usam mais bolsas em Niterói -, com tranquilidade.

Eu quero uma casa no campo…

Sim, o Rio de Janeiro é lindo! Mas infelizmente, não só de natureza linda se vive bem. É necessário muito mais do que isso. O cartão postal fica bonito só na foto – que pode nem chegar a ser postada, pois se você não tomar cuidado… tchau, câmera!

Quem pode ser feliz vivendo assim?

Voltar de viagem é uma mistura de sensações. É alegria de voltar para o nosso lar, mas a certeza de que estamos inseguros de novo. Uma pena sentir tudo isso. Mas alguém se identifica?



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