12 de Setembro de 2016

Teatro: O Autofalante de Pedro Cardoso

Ontem fui com o Vi ao teatro assistir O Autofalante de Pedro Cardoso. Quando vi que ele estaria em cartaz aqui em Niterói, já era quase tarde demais, pois vi apenas no sábado, quando estávamos indo ao Parque Olímpico e no domingo teríamos um churrasco com o pessoal do trabalho do Vi. Mas depois de ler um milhão de elogios ao monólogo no Facebook do meu amigo Jonas, acabei comprando o ingresso. Teríamos que voltar mais cedo do churrasco, mas estava com a certeza de que valeria a pena.

Pedro Cardoso é genial. Ao contrário de 99% dos espetáculos teatrais, ele entra em cena falando tudo o que a maioria dos atores deixa para falar no final. Agradece a presença de todos, fala sobre tudo o que “não incomoda” um ator em cena: atender o celular, conversar com um amigo do lado durante a peça, ficar usando o celular para tirar fotos, levantar durante a apresentação, chegar atrasado e por aí vai. Uma pena que nem todos entenderam que aquilo era uma ironia e acreditaram mesmo que era frescura dos atores que se incomodavam com tudo aquilo e que o Pedro Cardoso era perfeito por simplesmente não se importar.

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Quando a peça começou, descobri que era a mesma que eu já tinha assistido há pouco mais de dez anos. Acho que foi em 2005, talvez 2004, no Rio. Naquela época, acho que saí do teatro com a bochecha doendo horrores de tanto que eu tinha rido, mas não me lembro de ter ficado com tantos questionamentos na cabeça, nem de ter percebido a beleza da crítica feita naquele monólogo.

Ontem, saí do teatro feliz de perceber que muitos ainda se preocupam em fazer arte inteligente, humor com qualidade, não aquela coisa vazia que também cansamos de ver por aí. O Autofalante de Pedro Cardoso foi escrito no início dos anos 90, mas acho que nunca foi tão atual quanto agora. O texto reflete MUITO o que vivemos e a interpretação dele é sensacional.

“Pedro Cardoso está de volta aos palcos, após nove anos desde sua última temporada, e retoma um trabalho antigo: O Autofalante, escrito e encenado pela primeira vez vinte e três anos atrás. O monólogo trata de um surto identitário provocado, não apenas pelo estado de sofrimento em que se encontra o personagem (perdeu seu emprego, sua mulher, a mobília, e seu telefone não funciona), mas também por determinados tipos contemporâneos de comunicação em que nos encontramos constantemente alijados do convívio humano. O sujeito da peça é impelido a conviver consigo mesmo, algumas vezes sem se dar conta disso, e tem sua personalidade dilacerada num estágio tal, que o levou a cortar relações com ele próprio. O humor advindo desse estado de desespero surge violento, quase trágico. O riso é generoso, e não esconde a gravidade da situação. A peça nos defronta com um terreno perigoso, o da tênue separação entre solidão e esquizofrenia, ao mesmo tempo em que trata de como a comunicação e a ideia de identidade atuais revelam tendências esquizofrênicas, expressas em nossas relações com máquinas, ou por músicas que invadem nossas cabeças, revelando o quanto não dominamos nossos pensamentos.”

Essa é a sinopse da peça, mas acredito que o texto vai muito, muito além de tudo isso. Outro dia, lendo um livro do Rubem Alves, ele disse que nem sempre podemos definir o que cada pessoa vai entender sobre aquilo que escrevemos/dizemos. Podemos escrever um livro pensando que deixamos clara a nossa opinião sobre aquele assunto, o nosso posicionamento ou a nossa realidade, mas quando ele começa a ser lido por outras pessoas, poderá ter um milhão de interpretações, vai depender do contexto que cada uma daquelas pessoas vive, das experiências que já tiveram e por aí vai.

Por isso, acho que O Autofalante do Pedro Cardoso atingiu cada um que estava ali no teatro de uma maneira diferente e cada um entendeu o monólogo de um jeito. Alguns, estavam ali apenas se divertindo.

Se fosse feita uma pesquisa com todos no final da peça, provavelmente cada um falaria uma coisa. Alguns diriam que a peça é a história de um cara maluco e que é muito engraçada. Outros poderiam dizer outras coisas. Já para mim, a peça tem uma crítica profunda sobre o nosso comportamento, nossos pensamentos e – por que não? – o cenário político do país. Tudo de maneira quase sutil.

Em três ou quatro momentos da peça, o personagem assiste televisão e o que vemos são cenas da nossa sociedade, dos programas de televisão, entrevistas, imagens que foram transmitidas em algum momento do mundo. E a gente fica pensando no tipo de informação que é passada, no tipo de conteúdo que somos bombardeados e de que maneira percebemos tudo aquilo, sem poder falar nada de volta. Como o personagem o tempo todo se questiona “Por que a televisão não tem orelha?” Somos “obrigados” a assistir aquilo sem ter voz para dizer sobre o que não concordamos, sobre o que achamos que não é verdade, sobre o que estão nos enganando. Aquelas cenas mostram como somos manipulados, como falam em nome de Deus, de verdades que nem sempre são realmente verdades e como aquilo pode “atingir” as pessoas que simplesmente acreditam em tudo o que ouvem. Afinal, vocês nunca ouviram ninguém falar “Menina, deu na televisão! Você quer saber mais do que eles?”?

Ao sair da peça, uma pessoa atrás de mim comentou: “Nossa! Muito engraçado, né? Ele é muito bom. Só achei desnecessárias aquelas partes da televisão!”. No primeiro momento, respirei fundo e pensei: Por que, meu Deus?! Por que a pessoa não entendeu nada?! Mas depois eu lembrei exatamente do texto que encerrava a peça, quando ele diz algo mais ou menos assim: “Por que as pessoas ficam tão chateadas com o que eu digo, com o que eu penso? Se existe liberdade de expressão, por que tantas pessoas se ofendem apenas por eu pensar diferente?”

E aí eu percebi como julgamos o tempo todo até sem perceber. Quem disse que todo o meu “entendimento” é o correto? E o que é correto? Existe o pensamento certo e o errado para todos os casos? Existe o ótimo e péssimo para todas as situações, histórias e coisas? Quanto mais defendermos a nossa opinião sem nem ouvir quem pensa diferente, mais e mais estaremos falando sozinhos. Como disse Pedro Cardoso em uma das cenas de O Autofalante, “ninguém ouve de verdade o outro, todos apenas ficam esperando ansiosamente o outro parar de falar para poder dizer o que pensa”.

O Autofalante termina com um texto maravilhoso – se alguém souber em que lugar posso encontrar, agradeço!! Pedro Cardoso, ou Maria (filha dele!! kkkkk), se um de vocês dois, por acaso, passar por aqui para ler o meu “autofalante” e se puderem enviar pelo menos o texto que encerra a peça para mim, ficarei eternamente grata (fernanda@fernandabelem.com.br)  – e com uma música do Cartola que eu AMO!

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar”  

 

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