05 de Maio de 2017

Variação sobre um Tema Antigo – Rubem Alves

Depois de ler “Variação sobre um tema antigo” de Rubem Alves não resisti. Precisava trazer essa crônica completa para vocês. Acho que é a primeira vez que faço isso aqui no blog. Normalmente, pego citações que mais gosto e coloco na coluna Entre Aspas, para dividir com vocês tudo o que aprendi nos livros que li.  Rubem Alves tem o dom de tocar fundo na minha alma e cada um de seus textos vão me enchendo de uma coisa boa, gostosa.

Essa crônica em especial “Variações de um tema antigo” é algo que eu acho que todo mundo precisa ler e guardar para si. Muitas vezes desejamos tanto que não vamos percebendo as coisas que conquistamos ao longo do caminho e passamos a desejar cada vez mais. Conquistamos e aquilo já não nos serve. Queremos o pedaço maior, a coisa mais bonita e por aí vai… Confiram:

“Era uma vez um pobre pescador e sua mulher. Eram pobres, muito pobres. Moravam numa choupana à beira-mar, num lugar solitário. Viviam dos poucos peixes que ele pescava. Poucos porque, de tão pobre que era, ele não possuía um barco: não podia aventurar-se ao mar alto, onde estão os grandes cardumes. Tinha de se contentar com os peixes que apanhava com os anzóis ou com as redes lançadas no raso. Sua choupana, de pau-a-pique, era coberta com folhas de palmeira.

Quando chovia, a água caía dentro da casa e os dois tinham de ficar encolhidos, agachados, num canto. Não tinham razões para ser felizes. Mas, a despeito de tudo, tinham momentos de felicidade. Era quando começavam a falar sobre os seus sonhos. Algum dia ele teria sorte, teria uma grande pescaria, ou encontraria um tesouro – e então teriam uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, um canário na gaiola e galinhas no quintal. Mas eles sabiam que a casinha branca não passava de um sonho. Por vezes a felicidade se faz com sonhos impossíveis. E assim, sonhando com a impossível casinha branca, eles faziam amor e dormiam abraçados.

Era um dia comum como todos os outros. O pescador saiu muito cedo com seus anzóis para pescar. O mar estava tranqüilo, muito azul. O céu limpo, a brisa fresca. De cima de uma pedra lançou o seu anzol. Sentiu o tranco forte, peixe preso no anzol. Lutou. Puxou. Tirou o peixe. Escamas de prata com barbatanas de ouro. Foi então que o espanto aconteceu. O peixe falou. “Pescador, eu sou um peixe mágico. Devolva-me ao mar que realizarei o seu maior desejo”. O pescador resolveu arriscar. Um peixe que fala deve ser digno de confiança. “Eu e minha mulher temos um sonho”, disse o pescador. “Sonhamos com uma casinha branca com janelas azuis, jardim na frente, galinhas no quintal, canário na gaiola. E mais, roupa nova para minha mulher”. Ditas essas palavras ele lançou o peixe de novo ao mar e voltou para casa, para ver se o prometido acontecera. De longe, no lugar da choupana antiga, ele viu uma casinha branca e, à frente dela, a sua mulher com um vestido novo – tão linda! Começou a correr, e enquanto corria pensava: “Finalmente nosso sonho vai se realizar! Finalmente vamos ser felizes!”

Foi um abraço de felicidade. A felicidade dela era completa. Mas não estava entendendo nada. Queria explicações. E ele então lhe contou do peixe mágico. “Ele disse que eu poderia pedir o que quisesse.” Houve um momento de silêncio. O rosto da mulher se alterou. Cessou o riso. Ficou sério. Ela olhou para o marido e, pela primeira vez, ele lhe pareceu imensamente tolo: “Você poderia ter pedido o que quisesse? E por que não pediu uma casa maior, mais bonita, com varanda, três quartos e dois banheiros? Volte. Chame o peixe. Diga-lhe que você mudou de idéia.” O marido sentiu a repreensão, sentiu-se envergonhado. Obedeceu. Voltou. O mar já não estava tão calmo, tão azul. Soprava um vento mais forte. Gritou: “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: o que é que você deseja?

O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido uma casa maior, com varanda, três quartos e dois banheiros!” O peixe lhe disse: “Pode ir. O desejo dela já foi atendido.” De longe o pescador viu a casa nova, grande, do jeito mesmo como a mulher pedira. “Agora ela está feliz”, ele pensou. Mas ao chegar a casa o que ele viu não foi um rosto sorridente. Foi um rosto transtornado. “Tolo, mil vezes tolo! De que me vale esta casa neste lugar ermo, onde ninguém a vê? O que eu desejo é um palacete no bairro elegante de uma cidade, dois andares, banheiros de mármore, escadarias, fontes, piscina.

VoIte! Diga ao peixe desse novo desejo!”

O pescador, obediente, voltou. O mar estava cinzento e agitado. Gritou: “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: “O que é que você deseja?” O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palacete num bairro rico da cidade”. Antes que ele terminasse, o peixe disse: “Pode voltar. O desejo dela já está satisfeito.” Depois de muito andar – agora ele já não morava perto da praia, ele chegou à cidade e viu, num bairro rico, um palacete tal e qual aquele que sua mulher desejava. “Que bom”, ele pensou. “Agora, com seu desejo satisfeito, ela deve estar feliz, mexendo nas coisas da casa.” Mas ela não estava mexendo nas coisas da casa. Estava na janela. Olhava o palacete vizinho, muito maior e mais bonito que o seu, do homem mais rico da cidade. O seu rosto estava transtornado de raiva, os seus olhos injetados de inveja.

“Homem, o peixe disse que você poderia pedir o que quisesse. Volte. Diga-lhe que eu desejo um palácio de rainha, com salões de baile, salões de banquete, parques, lagos, cavalariças, criados, capela.”

O marido obedeceu. Voltou. O vento soprava sinistro sobre o mar cor de chumbo. “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” O peixe apareceu e lhe perguntou: “O que é que você deseja?” O pescador respondeu: “Minha mulher me disse que eu deveria ter pedido um palácio com salões de baile, de banquete, parques, lagos… “Volte!”, disse o peixe antes que ele terminasse. “O desejo de sua mulher já está satisfeito.”

Era magnífico o palácio. Mais bonito do que tudo aquilo que ele jamais imaginara. Torres, bosques, gramados, jardins, lagos, fontes, criados, cavalos, cães de raça, salões ricamente decorados … Ele pensou: “Agora ela tem de estar satisfeita. Ela não pode pedir nada mais rico.”

O céu estava coberto de nuvens e chovia. A mulher, de uma das janelas, observava o reino vizinho, ao longe. O céu estava azul. Fazia sol. Ao longe se viam as pessoas alegremente passeando pelo campo.

“De que me serve este palácio se não posso gozá-Io por causa da chuva? Volte, diga ao peixe que eu quero ter o poder dos deuses para decretar que haja sol ou haja chuva!”

O homem, amedrontado, voltou. O mar estava furioso. Suas ondas se espatifavam no rochedo. “Peixe encantado, de escamas de prata e barbatanas de ouro!” – ele gritou. O peixe apareceu. “Que é que sua mulher deseja?”, ele perguntou. O pescador respondeu: “Ela deseja ter o poder para decretar que haja sol ou haja chuva!”

O peixe falou: “Vou lhes dar uma coisa melhor: vou lhes dar a felicidade!” O homem riu de alegria. “É isso que eu mais quero”, ele disse. “Volte”, disse o peixe. “Vá ao lugar da sua primeira casa. Lá você encontrará a felicidade”. E, com essas palavras, desapareceu. O pescador voltou. De longe viu a sua casinha antiga, a mesma casinha. Viu sua mulher, com o mesmo vestido velho. Ela colhia verduras na horta. Quando ela o viu, veio correndo ao seu encontro. “Que bom que você voltou mais cedo”, ela disse com um sorriso. “Sabe? Vou fazer uma salada e sopa de ostras, daquelas que você gosta. E enquanto comemos, vamos falar sobre a casinha branca com janelas azuis”. Ditas essas palavras ela segurou a mão do pescador enquanto caminhavam, e eles foram felizes para sempre”.

Perceberam? É uma crônica para pensar, refletir e guardar sempre com carinho. Acho que devemos agradecer por tudo o que conquistamos ao invés de viver pedindo sempre mais e mais. Bom final de semana para todos vocês.

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