11 de Março de 2016

Voltei para o teatro para perder a timidez

Voltei para o teatro, dessa vez com um objetivo diferente: perder a timidez. Nem todos vocês sabem, mas fiz teatro desde os oito anos de idade. Antes disso, já era apaixonada pela arte de interpretar, pois ainda no maternal tanto a minha mãe quanto a minha escola – Maia Vinagre – já me levavam ao teatro. Além disso, o hábito que meus pais criaram em mim de sempre ler algum livro para me fazer dormir ou quando estava entediada e aqueles disquinhos de história de antigamente – quem lembra? – deixaram o meu mundo muito mais colorido e cheio de imaginação.

Cresci fazendo diversos cursos e me apaixonando ainda mais por aquela arte. Nunca fui tímida, era sempre a garota que fazia o que desse na telha, sem me preocupar muito com a opinião das outras pessoas. Apresentava os trabalhos na escola, adorava falar, não tinha nenhum problema em fazer novas amizades – muito pelo contrário – e a vergonha passava bem longe da minha personalidade.

E assim foi até os meus vinte e poucos anos. Mas quando tudo mudou? Um dia eu fui chamada para substituir uma atriz em uma peça de teatro, mas tive muito pouco tempo para ensaiar até a estreia. No dia, como se não bastasse já todo o nervosismo que eu estava sentindo, assim que abriram as cortinas, dei de cara com Vinicius – sendo que a gente tinha terminado o namoro alguns meses antes – e eu fiquei instantaneamente estremecida. Esqueci absolutamente TODO o texto, todas as falas, tudo! Improvisei no palco, enquanto meu coração batia forte e acelerado. Os outros atores tiveram que improvisar a peça inteira, pois eu era o ponto principal – fazia a terapeuta que ficava presente do início ao fim e que era a chave de todo o espetáculo – misturei as cenas, fiz tudo errado. Um caos.

Teatro Papel Crepon

Depois disso, nunca mais quis subir em um palco novamente como atriz e a timidez me pegou de jeito. Na faculdade fugia de todas as apresentações, tremia só de pensar em falar com algum desconhecido e mais ainda para falar em público, mesmo que não fosse para muita gente. Anos depois tentei melhorar com a dança, mas quase passava mal no dia da apresentação de final de ano. Suava frio, não conseguia nem sorrir enquanto dançava, sempre pensando que poderia estragar tudo. Ou seja, um verdadeiro trauma de palco.

Como disse lá no início, a imaginação sempre foi o meu ponto mais forte e consequentemente as histórias e a arte sempre fizeram parte da minha vida, assim como atuar, escrever sempre foi uma paixão. Na época dos cursos de teatro, a parte que eu mais gostava era quando o professor falava para a gente criar uma cena, uma esquete, um monólogo para interpretar em seguida. Eu sempre dava a ideia e ficava pau da vida quando não topavam. Risos!

Acho que por tudo isso, escrever é uma coisa tão parte de mim que é impossível não fazer. Amo criar mundos, personagens, conflitos. Imagino cada cena na minha cabeça e só me dou por satisfeita quando ela está totalmente real na minha imaginação. Sinto o maior prazer do mundo quando estou na frente do computador dando vida aos meus protagonistas. Mas um dos maiores “sofrimentos” nesse mundo da literatura é quando dou palestras ou nas noites de autógrafos dos meus livros. Vivo um conflito interno que vocês não podem nem imaginar. AMO todo o carinho que recebo de cada um dos meus leitores, a emoção que sinto com cada presença, com a atenção para o que eu falo, é algo que nunca vou esquecer e que agradeço todos os dias antes de dormir. Mas ao mesmo tempo é quase dolorosa a sensação de ser o centro das atenções naqueles momentos. Suo frio, a mão treme, o coração vai na boca e quase me sinto frustrada por não conseguir simplesmente me entregar sem morrer de ansiedade, sem sentir todas essas coisas terríveis. Fico me culpando por não ter feito a letra mais bonita, por ter feito uma dedicatória feia. É como se todas as vezes eu voltasse para aquele palco e esquecesse mais uma vez todas as falas.

Exatamente por querer me entregar totalmente e esquecer o trauma do passado, resolvi voltar para o lugar que tudo começou: o teatro. Já estou fazendo análise há um ano – comecei depois do lançamento de Ah, o verão!, quando me senti totalmente frustrada por não ter aproveitado a minha noite de autógrafos no Rio como deveria, por ter tremido, me sentido insegura, por ter travado em diversos momentos -, mas sabia que precisava de algo maior ainda.

No início da semana eu liguei para o Papel Crepon, que é uma companhia de teatro bem antiga aqui em Niterói e bem próxima da minha casa. Descobri que eles tinham turma de adulto e que eu já poderia começar na quinta-feira. Mesmo com toda a minha insegurança, vergonha e quase medo, mesmo sem conhecer ninguém – até tentei convencer algumas amigas a ir comigo -, meti a cara e fui. Olhar o palco, começar os exercícios, fazer todas as cenas propostas pelo professor não foi uma tortura. Eu não tremi, não fiquei nervosa.

Sabe quando você reencontra um amigo que você gosta demais, mas que não o via desde a adolescência – ou desde a infância, dependendo da sua idade (risos!) -? Sabe aquela sensação de saudade, de vontade de abraçar, de curtir cada momento para recuperar os anos perdidos? Foi exatamente como me senti. No lugar de relembrar o trauma, senti que algo dentro de mim parecia estar se quebrando. Como se em algum lugar do meu corpo estivesse uma pedra de gelo e que de repente tivesse começado a derreter. A sensação era mais ou menos essa. Foram três horas de aula e quando chegou ao fim a vontade era de que tivesse mais e mais.

Não sei se na próxima palestra ou se no lançamento do Folhas de um Outono eu vou deixar de tremer, de suar e de sentir o coração bater como uma bateria de escola de samba, mas tenho quase certeza que o teatro vai me ajudar a não ter mais vergonha, a não me cobrar tanto, a não achar que cada dedicatória tremida vai ser como aquele texto esquecido. Acredito que agora vou voltar a fazer as pazes com os palcos, com o público e comigo mesma.

Acho que as coisas só mudam quando a gente muda. Poderia continuar fugindo do que me causa “medo”, mas não quero mais “sofrer” para fazer as coisas que mais amo no mundo. Vamos ver o que vai acontecer a partir de agora. Vamos ver de a Fernanda tímida – que meus amigos do passado não acreditam que eu me tornei – me deixa de uma vez. Vou contando tudo para vocês.

E se você também tem um trauma, um medo que te trava, vá em frente e enfrente! =)

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